#PEPETELA “Lucas Stefano resenha As aventuras de Ngunga”

Ao longo deste curto e riquíssimo livro vamos acompanhando a história de Ngunga, um rapaz órfão de 13 anos. Após sofrer um ferimento no pé, Ngunga é levado pelo guerrilheiro Nossa Luta a um posto de saúde para se tratar, tendo aí o início da saga do nosso protagonista. Entre um kimbo (povoado, aldeia) e outro, vamos sendo inseridos ao seu dia-a-dia, a luta pela sobrevivência, bem como o cotidiano do conflito armado do povo angolano para se libertar das amarras do colonialismo.
Arthur Carlos Maurício Pestana dos Santos, mais conhecido como Pepetela, nascido em Benguela, em 1941, é um aclamado escritor angolano. Oriundo de uma família de portugueses nascidos em Angola, concluiu seus estudos regulares, tendo rumado para Portugal , onde fez o curso de Engenharia no Instituto Superior Técnico. Nos anos 1960 se tornou militante pelo MPLA.
Combatente durante o auge do processo de Independência de Angola, publicou diversas obras durante o período da Guerra Civil Angolana (1975-2002), entre elas o seu livro de estréia, "As Aventuras de Ngunga", em 1976. Nos anos seguintes se tornou membro da União dos Escritores Angolanos, bem como Vice-Ministro da Educação, tendo ficado no cargo por sete anos, se aposentando em 1982 para se dedicar exclusivamente à escrita. Já publicou diversas obras, tendo em 1997 recebido o prestigiado Prêmio Camões pelo conjunto da obra.
“As Aventuras de Ngunga”,  publicado em 1976, começa a carreira literária de Pepetela logo com o pé direito. Produzido no contexto de luta pela independência de Angola contra o domínio luso (1972), a obra reflete os anseios revolucionários do autor ainda no fim dos anos 1960. Direcionado inicialmente à um grupo de amigos universitários, a obra expressa um franco didatismo sem ser pedante, e descortina uma série de aspectos das tradições, do rigor do jugo colonial e dos psicológico dos seus personagens dentro do contexto em que trata.
Por falar em personagens, somos apresentados a uma série deles, principalmente através da perspectiva do próprio Ngunga: Nossa Luta vem a ser um guerrilheiro que cuida de Ngunga partir do momento em que o jovem ficou órfão com o assassinato dos pais; Kafuxi,é um dos chefes de família de um kimbo que acaba por encarnar o egoísmo das pessoas que teimam em não auxiliar a guerrilha, pensando apenas em si mesmos e não em um propósito maior; Mavinga, é um dos comandantes da guerrilha armada; União, um sábio professor e Uassamba, moça da idade de Ngunga casada com um homem muito mais velho e o primeiro amor de nosso protagonista.
Se fazendo valer do narrador em terceira pessoa temos o foco narrativo posto sobre o cotidiano de Ngunga em seu trajeto pelo interior do país. A floresta, a vida dura dos camponeses, a organização dos kimbos, que nada mais são do que aldeias interioranas cujos seus habitantes se dedicam a agricultura e à caça, a lida dura na guerrilha, a corda bamba constante a que os combatentes estão sujeitos entre a vida e a morte, bem como os costumes de uma nação nos são apresentados formando o panorama da riquíssima ambientação no livro.
De tempo primordialmente cronológico, a novela se passa ao longo de algumas semanas, da ida de Ngunga ao posto, bem como da sua peregrinação por diversos kimbos, sua prisão e libertação. Interessante notar, sobretudo, a clareza da linguagem de Pepetela em abordar os temas que propõe, bem como a busca em mostrar, sem rodeios, na perspectiva de uma jovem criança, os meandros das relações humanas, o multifacetado do psicológico de seus personagens, além claro de um inegável convite à luta pela libertação de sua nação de origem.
Ler "As aventuras de Ngunga" me proporcionou uma grata experiência literária. Tem sido uma sensação comum em relação as obras de literatura africana. Bem escrito, de enredo extremamente bem amarrado, é impossível não sentir empatia pela saga do jovem "pioneiro", como Ngunga é chamado em alguns momentos do livro. Através dos olhos inocentes de uma criança, somos apresentados mediante o percurso de amadurecimento de um personagem a um retrato pungente da realidade de um país e de um povo vasto e diverso em sua luta por um direito inalienável do ser humano: a liberdade. Vale a pena a leitura com toda a certeza.
PEPETELA.  As aventuras de Ngunga. Alfragide, Portugal: LeYa. 2002. 60 pp.
Lido no dia 12 de Junho de 2017
O CRÍTICO - Lucas Stefano, 21 anos, é oriundo da cidade de Bragança, Pará, nascido em 18 de setembro de 1995. Desde a infância tem manifestado interesse pela literatura. “O mágico de Oz” foi o seu primeiro livro lido até o fim, aos 8 anos de idade. E daí não parou mais. Concluinte do curso de Licenciatura Plena em História pela Universidade Federal do Pará- Campus Bragança, Lucas Stefano também escreve pequenas narrativas de ficção e não ficção (contos e crônicas respectivamente), estas ainda não publicadas. Além disso, mantém atualizado a partir de suas leituras o blog de resenhas literárias intitulado “Ler, Resenhar e Aprender”. Atualmente encabeça dois projetos de leitura: “Top 10 melhores livros do Stephen King”, em comemoração ao aniversário de 70 anos do autor, e o “Literatura Africana em Língua Portuguesa”. O intuito é divulgar autores africanos do PALOP (Países  africanos de língua oficial portuguesa) para o máximo de pessoas possível.



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