#RÉQUIEM > “Dois anos sem a Tia Cirene Guedes" (Memórias familares do Carpinteiro)

Uma história fascinante esta contada no prefácio do livro “Poemas Molhados”, de Cirene Guedes, que será lançado no dia 14 de agosto de 2015, no restaurante Benquerênça, em Bragança.
De acordo com Nélio Fernando Gonçalves, que faz a editoria da obra em nome da Academia de Letras e Artes de Bragança (ALAB), o sugestivo nome deve-se ao fato de um alagamento na casa da poeta, que por pouco não perdeu a sua produção depois de um forte temporal.
Antes que as águas levassem os textos, Nélio Gonçalves os reuniu e chamou amigos como o escritor José Leôncio (que acabou de lançar a sua “Estrada de Ferro: o caminho dos sonhos”), para fazer uma espécie de curadoria e coleta entre os acadêmicos para editar e lançar 400 poemas de Cirene Maria da Silva Guedes.
FAMÍLIA - Cirene vem a ser prima de minha mãe, Dona Josefa, tendo sido com ela criada, pelo que, na verdade, era uma espécie de filha mais nova de mamãe. É que, quando o Seu Odorico (o homem que criou a minha mãe) casou com a Dona Augusta (a quem chamávamos de Vovó), o casal já se formava com cinco pessoas, sendo, além da Tia Cirene, que vem a ser sobrinha de Seu Odorico, somando-se a ela, a minha mãe Dona Josefa e sua irmã, Dona Celina.
As três têm muitas histórias, embora nos dias de hoje estas memórias existam apenas na cabeça da Tia Cirene, que as reconta, acrescentando pontos.
Eu a chamo de Tia, mas é muito tardia esta relação familiar que estabelecemos, até porque eu sou o mais novo dos irmãos, e cresci e me criei em Belém, desfrutando sempre das férias com Seu Odorico, Dona Augusto, e a Tia distante Cirene, que hoje está bem mais próxima, já que eu vim morar em Bragança, depois de casar com Dri Trindade.
Começamos então por fazer umas filmagens com titia, tenho uns depoimentos dela, e usei a sua voz em off de um outro filme que ainda nem montei, e que se chama “Os olhos de Luana” e que faz parte de uma pesquisa existencial e artística, que se revela em filmes de natureza familiar, em que meus familiares, estão presentes, com suas imagens e suas vozes.
Aqui em Bragança, procurei me aproximar mais de titia, e de ouvir os seus causos e as suas histórias.
Inclusive tenho algumas leituras gravadas dela destes poemas agora editados gentilmente pelo Nélio Fernando, a quem eu quero de coração agradecer pela edição preciosa dos poemas de titia, apesar de que eu sinceramente jamais meteria quatrocentos poemas numa única obra, antes pelo contrário, eu a dividiria em pelo menos quatro partes, mas compreendo esta ação, este rompante quase épico, que prestigia a nossa querida poetisa, dona de uma erudição absoluta e de uma memória de elefante.
Nélio Fernando chegou em boa hora para fazer esta edição. Sempre lhe seremos grato por isso. E sabemos que, rigoroso como é, não o faz por amizade, mas por respeito á obra da poeta Cirene.
Tia Cirene escreve poemas e versos e faz canções a qualquer momento, basta-lhe provocar o tema, e ela sai poetando, e cantando, com uma velocidade de causar inveja aos mais novos, sem contar na sua rapidez em recordar cada um dos próprios versos que acaba de fazer, descrevendo inclusive a sua localização no espaço da página.
Com 74 anos de idade e morando sozinha em sua casa, Tia Cirene sofre de diabetes, doença que lhe está pouco a pouco enfraquecendo o corpo, mas jamais a alma.
Seus olhos sempre a brilhar e sua sagacidade em querer saber e emitir opinião continuam vibrantes, sem falar no seu permanente senso de humor, mesmo quando está mal humorada.
Muito difícil para um ser humano como eu, poeta e editor, artista verdadeiro, falar da pessoa e da poeta Cirene da Silva Guedes, mas não impossível.
Estou num processo de busca existencial em meus projetos e este reencontro com minha velha e distante tia que agora a sinto mais próxima está me fazendo um outro ser, mais humano, mais poeta.
Não a quero compreendê-la, quando muito escutá-la; não a quero indaga-la, quando muito ouvir suas histórias e estória;, não a quero editar, mas absorver os seus poemas e seus cantos.
Vamos lá no Benquerença, que a vida nos chama para saudar e reverenciar a poesia em comunhão com os poetas.
SERVIÇO – Lançamento de POEMAS MOLHADOS, obra poética de Cirene Maria da Silva Guedes. Dia 14 de agosto, sexta-feira, no Benquerença, a partir das 18H30.
Fonte © #TRIBUNADOSALGADO



(Foto do poema escrito pela autora, em 2014, em homenagem ao FICCA - Festival Internacional de Cinema do Caeté. Texto escrito por Francisco Weyl, e publicado em 8 de agosto de 2015, no FB da Tribuna Do Salgado.Cirene morreu dois dias após o lançamento do livro ao qual ela não foi porque já estava hospitalizada, mas, mostrava-se radiante vir a lançar este livro)
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