#MIACOUTO "A guerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder” (Por Lucas Stefano)



O jovem Muindinga e o idoso Tuahir estão caminhando por uma desolada estrada de seu país, Moçambique, durante a Guerra Civil (1976-1992) que arrasou aquela nação no pós-independência. Sem saber de onde veio, Muindinga recebe auxílio do idoso Tuahir em sua jornada após a saída de um campo de refugiados. Durante a caminhada, se deparam com um ônibus (machimbonbo) incendiado constelado de corpos carbonizados. Enquanto se dignam a dar um enterro decente para cada um dos cadáveres, o jovem Muindinga encontra uma mala ao lado de um corpo baleado contendo, além de roupas e utensílios, uma série de cadernos. Nas horas vagas, entre caminhadas e noites sob o abrigo do estropiado ônibus incendiado, as histórias de nossos dois primeiros personagens se entrelaçam com a do conteúdo dos cadernos, outrora pertencentes a um certo Kindzu.

Oriundo de uma aldeia no interior de Moçambique, Kinzdu possuía um pai atacado pelo sonambulismo. Sua rotina muda de maneira radical quando estoura a Guerra Civil. Se vendo sem opções, acaba por partir de sua casa na esperança de encontrar os chamados naparamas, tradicionais  guerreiros abençoados por feiticeiros, que se creem serem os únicos capazes de parar o caos em que o país se transformou por conta da Guerra.

Publicado em meados de 1992, "Terra Sonâmbula" logo se configurou como um dos mais célebres (senão o mais célebre) livro  do escritor moçambicano Mia Couto, tendo sido eleito na Feira Internacional do Zimbábue como um dos maiores romances africanos de todo o século XX. Reconhecido como marca da excelência da poderosa escrita de seu autor, o livro já foi e ainda é objeto de inúmeros estudos e resenhas ao redor do mundo e não só em países falantes de Língua Portuguesa.

Antônio Emílio Leite Couto, mais conhecido como Mia Couto sobretudo por sua paixão por gatos, nasceu em 1955 na cidade de Beira, Moçambique. Ainda adolescente publicou poemas em jornais locais, iniciando, portando, bastante jovem a sua carreira literária. Já adulto, enveredou na faculdade de Medicina tendo, anos depois, seguido carreira no Jornalismo enquanto correspondente na Guerra da Independência de Moçambique. Concluiu estudos universitários em Ciências Biológicas, hoje integrando grupos de preservação ambiental. Já publicou inúmeras obras bem como tem recebido ao longo dos anos diversos prêmios literários, dentre eles o prestigiado Prêmio Camões em 2013, maior honraria literária em Língua Portuguesa, abaixo apenas do Nobel.

Diversos personagens pontuam o livro "Terra Sonâmbula". Primeiramente somos apresentados a Tuahir e Muindinga. O primeiro, é um senhor já de idade, outrora residente em um campo de refugiados. Durante a sua estadia ele resgata um jovem  que estava prestes a ser enterrado agonizante a quem ele atribui o nome de Muindinga. Kindzu vem a ser o redator dos cadernos lidos por Muindinga ao longo do livro, a partir do momento em que as histórias vão o tempo todo se alternando. Kindzu está em busca dos Naparamas, enquanto presencia o estouro e transcorrer da Guerra Civil que assola o seu país. Por Kindzu somos apresentados a Taimo, seu pai que sofre de sonambulismo, sua mãe e seu irmão Vintecinco de Junho, apelidado de Junhito, rapaz que foi disfarçado de galo para escapar dos horrores da Guerra; Surrendra, comerciante indiano e conhecido de Kindzu; Siqueleto, feiticeiro que arma uma armadilha em que Muindinga e Tuahir acabam caindo, Farida, o grande amor de Kindzu e Gaspar o filho desaparecido desta.

Narrado numa constante alternância entre primeira (perspectiva de Kindzu) e terceira pessoa (narrador que acompanha a jornada de Muidinga e Tuahir) vamos sendo inseridos a uma ambientação em comum: Moçambique, porém em momentos distintos. No caso de Kindzu, vamos acompanhando a perspectiva da tomada de consciência das consequências malévolas bem como os horrores da Guerra Civil em seu início e desenrolar, e que vitimaria mais de um milhão de moçambicanos. No caso de Muindinga e Tuahir, a mesma já está em franco andamento. No plano de fundo da narrativa no presente somos levados no decorrer de alguns dias da jornada de Muindinga e Tuahir com os cadernos e na sua luta pela sobrevivência

Mia Couto aqui nos apresenta um enredo não linear, pontuado sobretudo por uma recriação exaustiva da linguagem no qual ele utiliza o já falado artifício da recriação de palavras, se fazendo valer de neologismos oriundos do falar do português de Moçambique (forte inspiração em  Guimarães Rosa) e do chamado realismo mágico (García Márquez mandou um alô) em que sonho e realidade, história e tradições ancestrais moçambicanas se mesclam de maneira magistral, conduzidos de maneira impecável por uma narrativa que se configura numa prosa poética de rara beleza.

Meus amigos, o que mais considerar acerca deste livro? Sim, fiquei no chão. Mia Couto consegue, como poucos, proporcionar em termos de estilo uma experiência de leitura simplesmente arrebatadora, sem perder, claro, o cunho de forte crítica social. Uma das diversas mensagens do livro vem a ser justamente a esperança: a busca constante por um futuro melhor, pelo seu auto-conhecimento enquanto nação entre um passado turbulento e um futuro incerto conectados por um presente desnorteado, tal qual o do jovem Muindinga que sofre de amnésia e busca os seus pais. E o que é este final? O que é o final deste livro?. Se havia alguma dúvida quanto a experiência que eu teria em relação a leitura de "Terra Sonâmbula", ela foi obliterada, com esta obra prima do senhor Mia Couto entrando, com méritos, no meu top 10 melhores leituras do ano até agora. Recomendo com força.



COUTO, Mia.  Terra Sonâmbula. São Paulo: Companhia das Letras. 2007. 204 pp.

Lido entre os dias 27 e 29 de Maio



O CRÍTICO - Lucas Stefano, 21 anos, é oriundo da cidade de Bragança, Pará, nascido em 18 de setembro de 1995. Desde a infância tem manifestado interesse pela literatura. “O mágico de Oz” foi o seu primeiro livro lido até o fim, aos 8 anos de idade. E daí não parou mais. Concluinte do curso de Licenciatura Plena em História pela Universidade Federal do Pará- Campus Bragança, Lucas Stefano também escreve pequenas narrativas de ficção e não ficção (contos e crônicas respectivamente), estas ainda não publicadas. Além disso, mantém atualizado a partir de suas leituras o blog de resenhas literárias intitulado “Ler, Resenhar e Aprender”. Atualmente encabeça dois projetos de leitura: “Top 10 melhores livros do Stephen King”, em comemoração ao aniversário de 70 anos do autor, e o “Literatura Africana em Língua Portuguesa”. O intuito é divulgar autores africanos do PALOP (Países  africanos de língua oficial portuguesa) para o máximo de pessoas possível.
 


"A guerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder. Seu veneno circulava agora em todos os rios da nossa alma. De dia já não saíamos, de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos." (p.11)



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