#MEMÓRIA "Tributo a Ubiratan Rosário" (José Varela, especial para a TS)



José Ubiratan da Silva Rosário, ilustre filho adotivo de Bragança, nasceu em Viseu, segundo informa seu tio e orientador de carreira o professor Orlando Sampaio Silva[i] e tendo, através da educação, conquistado lugar de destaque entre os cidadãos de nosso estado foi um notável intelectual orgânico que honra as melhores tradições bragantinas no país que se chama Pará. Ubiratan Rosário era, indubitavelmente, cidadão do mundo sem renegar jamais o torrão natal. Não hesito em colocá-lo no rol dos artífices do pensamento descolonial amazônida que têm em Abguar Bastos, Bruno de Menezes e outros modernistas da Academia do Peixe Frito (Belém) e do Clube da Madrugada (Manaus) seus fundadores. Uma voz do Nordeste Paraense que representa sua gente e contribui significativamente para colocar a bandeira do Pará no mapa do Brasil.

No meu fraco conhecimento, José Ubiratan é o único autor amazônida (além de mim mesmo em dois modestos ensaios[ii]) que relaciona – historicamente –  o mito tupi-guarani da Terra sem Mal (Yvy Marãey) à saga dos Tupinambás do Maranhão e Grão-Pará: consequentemente, à invenção da Amazônia brasileira. Lembrá-lo no momento em que se fala das esperanças da Amazônia azul com suas riquezas submersas pelo antigo “Mar portuguez” de Fernando Pessoa, é arte de reafirmar que o nosso Pará é, para sempre, do Brasil sentinela do Norte. E, portanto, a história e geografia da região é principalmente a sua gente consciente de quem ela é, donde veio e aonde quer ir. A utopia do Bom selvagem, em busca de uma terra onde não existe fome, trabalho escravo, doença, velhice e morte, se funda com o sebastianismo cujo monumento na paisagem cultural se acha  ancorado com a nau do Rei Sabá nas praias de São João de Pirabas. Hora de falar de uma Amazônia atlântica que contempla, além do turismo, a imensidão da Corrente equatorial marítima que nos traz de África e de Europa o bem e o mal da nossa história. Além de mostrar oportunidades e responsabilidades compartilhadas com outros povos ribeirinhos, ao longo da costa banhadas pela Corrente brasileira e a corrente das Guianas, respectivamente.

Nesta arqueologia poética, a carpintaria naval tranformadora da primitiva ubá em igarité e a mutação colonial do apagamento de aldeias para dar lugar a vilas portuguesas como esta Bragança mestiçada ao sol do equador na “zona tórrida” das Antípodas, sem jamais perder o norte da utopia brasílica: pensamento descolonial, expressado por José Ubiratan dentre outros amazônidas insubmissos aos ditames de Pombal e sucessores, nos mostra que lugar de índio na Amazônia é na história. Por aí, a par do negro acorrentado à mesma história e de pobres casais povoadores do ultramar, somos todos descendentes dessa gente pelo empoderamento permanente do território do Norte brasileiro.

Por esta via, o tremendão Tupinambá tem reconhecida condição de co-fundador do Presépio e foi mensageiro do sucesso da missão no Caminho do Maranhão junto a soldados portugueses. Não é pouca coisa. Trata-se da tardia inclusão do índio com sua indispensável descendência na história do Pará a fim de sanar, de uma vez por todas, a farsa da adesão à independência.  Por isto, quando grupo de canoistas vai descer o rio Caeté depois de subir o Guamá com seus afortunados caiaques, mais que um passeio, a aventura se transforma em viagem exploratória do espaço e tempo antigo do caminho do Maranhão através do coração do Salgado, louvado seja São Benedito!

O rio Caeté está ligado ao Guamá através de antigo varadouro por terra, estimado em cerca de cinco léguas (ou, mais ou menos, 33 km) entre Ourém e Arraial do Caeté. Esta passagem pela floresta faz parte do caminho que vinha de São Luís passar por Bragança em direção a Belém, também chamado "caminho dos Tupinambás". Rústico traçado que foi, outrora, guia de outras vias posteriores como, por exemplo, a estrada de ferro Belém-Bragança e por fim a rodovia Pará-Maranhão.

Já tive oportunidade de lembrar a importância do "rio de Guamá"    isto é, rio do cacique dos Aruã e Mexiana nas ilhas do Marajó em suas costumeiras incursões guerreiras à terra-firme –  na história do Pará velho de guerra. O outro lado da história pela margem esquerda do Pará. Os Nheengaíbas (nome pejorativo atribuído pelos Tupinambás a povos das ilhas de tronco cultural e linguístico Aruak), são os mais antigos da região contados entre tapuias em geral. Nhengaíbas e Tupinambás – ou seja, Ilhas e Terra Firme –, eram inimigos hereditários entre si. Estes últimos chegaram através do Nordeste penetrando a “terra dos Tapuias” em pinça através do Tocantins e do Salgado, depois da longa caminhada pelo Peabiru, dos contrafortes dos Andes ao litoral de Piratininga; em busca da famosa Yvy marãey (terra sem mal). "Roteiros... roteiros... roteiros..." (Oswald de Andrade, "Manifesto Antropofágico", 1928).

Nunca perguntamos o motivo pelo qual, na verdade, os Tupinambás vindos de tão longe se acharam no Maranhão e Pará e aliaram-se aos antes odiosos Perós (portugueses) e deixaram de lado seus bons camaradas de outrora, Mair (franceses). Todo mundo deveria saber que, através deste caminho, o Bom selvagem chegou até o Alto Amazonas e abriu os caminhos do sertão na construção territorial do Brasil moderno... Mas os “nheengaíbas” já estavam aqui vindos do Caribe e Guianas, e pela calha do Amazonas ocuparam os extremos do Acre e Guaporé (Rondônia) até o Pantanal, em busca do país do Cruzeiro do Sul (“Arapari” chamado pela massagada aruaca).

O rio de Guamá está umbilicalmente ligado ao Salgado e conecta o extremo Norte brasileiro ao Nordeste desde tempos remotos, com testemunho dos sambaquis até a Baixada Maranhense. Ele também nos vem e nos leva ao Caribe, através das Guianas. Uma história de muita antiguidade na qual se acha inserida a milenar Cultura Marajoara. Por esta parte se costuram à Amazônia brasileira as memórias de Hatuey e Guamá em luta desesperada contra cariuás, conquistadores espanhóis desde a primeira hora[iii].

Os Tupinambás em aliança com franceses e depois portugueses contra "falantes da língua ruim" (nheengaíbas), holandeses e ingleses acamaradados "malvados" [marãyu / marayo, Marajó], franquearam aos "cunhados" o Caminho do Maranhão e outras passagens de sua saga na Tapuya tetama (terra Tapuia), margem direita do Pará. Convém lembrar que “tapuia” é genérico a todos não-tupis, os Timbiras (tronco ), por exemplo, eram tapuias do Maranhão. Inversamente, pela margem esquerda belicosos índios das ilhas davam passagem e guarida a traficantes vindos das Antilhas e Guianas a fim de praticar escambo, troca de "gados do rio" e "drogas do sertão" por miçangas e eventualmente armamentos para manter o inimigo tupi ao longe. Como foi o caso que redundou no furto do café de Caiena pela tropa de guarda costa comandada pelo sargento-mor da Vigia, Francisco de Mello Palheta; mandado prender o cacique Guamá, vivo ou morto, em 1723.

Antigos marajoaras eram guerrilheiros temidos pelo poder mortífero de seus dardos envenenados de curare (segredo de velhas matriarcas), atirados de emboscada por sopro com certeiras zarabatanas enfeitiçadas sob inspiração totêmica da Jararaca (Bothropos atrox), a Arqueologia informa na icnografia marajoara. Então, já se sabe o fato daqui ser antiga fronteira de guerra antes mesmo da chegada dos brancos, por acaso esta faixa veio a coincidir com a suposta linha de partição do mundo ("testamento de Adão", tratado de Tordesilhas) entre os reinos de Castela e Portugal, 700 léguas a oeste de Cabo Verde. Seria o caso de fazer piada e dizer “é a geografia, estúpido!”. Mas devemos saber que a geografia esconde as consequências históricas. O problema da pesca, por exemplo.

De modo que se espera, a partir da Tribuna do Salgado, estimular estudantes e pesquisadores de geografia, história e turismo; a elaborar trabalhos que possam levar ao reconhecimento de titulo de patrimônio natural de relevante interesse histórico ao "rio de Guamá": caminho de águas de fundamental importância a roteiros integrados da paisagem cultural do Ver O Peso até ao Salgado e Reentrâncias Maranhenses. Uma histórica região costeira dotada de impressionante sucessão de rias e baías da Amazônia Atlântica, de interesse ao gerenciamento costeiro e conservação do bioma oceânico com inclusão e desenvolvimento socioambiental das comunidades tradicionais ribeirinhas.

Sergio Buarque de Holanda, em "Caminhos e fronteiras", ensina como a ocupação territorial procede da lenta evolução biogeográfica dos lugares e faz história dos processos e procedimentos cotidianos desde povos nômades através da caça e da coleta, da lavoura, viagens e exploração de novos espaços. Antes da antropização, o carreiro incipiante da caça em busca de comedia e bebedouro, guiou o índio na abertura de trilhas que, ao longo do tempo, se transformaram em caminhos da colonização. Com isto, vastas transformações ocorridas desde tempos pré-colombianos no país até o século XIX adquirem agora contorno de coisas vividas. Para a historiografia colonial o Brasil é um país “jovem” de apenas 500 anos. Quando, na verdade, para o povo brasileiro a primeira cultura complexa amazônica – Cultura Marajoara – conta 1500 anos de existência. O problema é saber se a intelectualidade tupiniquim vai continuar a colocar na cabeça da gente que, antes de Cabral, nestas paragens tudo é pré-história. Ou, ao contrário, se a arte primeva do Brasil já se achava às margens da Amazônia atlântica, na ilha do Marajó.

Na "Viagem a Portugal", Saramago diz que o viajante aprecia na paisagem o que vê e também o que imagina. Como seria este esquecido caminho do Maranhão falado, tão importante na conquista do Pará e invenção da Amazônia?...
Segundo Capistrano de Abreu, teve início a viagem ao Maranhão com a notícia de fundação da Feliz Lusitânia no dia 7 de março de 1616. Os alferes Pedro Teixeira e Antônio da Costa partiram por terra acompanhados de dois soldados e trinta índios. Podemos deduzir que a missão excedia a uma simples mensagem de fundação de Belém, pois neste caso seria mais expedido despachar uma das três embarcações vindas do Maranhão. Na verdade, carecia ir logo descobrindo a terra da nova conquista lusa sob o pendão da União Ibérica (1580-1640). Esta descoberta, note-se bem, aconteceu com a viagem de dois alferes e dois soldados portugueses guiados por trinta índios de nação Tupinambá (desde então, a história do Pará não deu nenhum passo sem o bravo conquistador tupi a lhe abri o caminho em terra tapuia).

Saindo por terra o caminho começava no forte do Presépio, sito à margem da baía do Guajará, e seguia mata adentro. Certamente em parte por canoa a remo, devido a alagadiços e igapós que separavam a Cidade do terreno que, mais tarde, seria o bairro da Campina então ocupado por aldeia indígena à beira do igarapé que deu lugar ao Reduto. Seguiriam os 34 mensageiros através do Igarapé do Piry, do qual resta hoje apenas a doca do Ver O Peso e o aterro que se tornou avenidas Portugal e 16 de Novembro. Na confluência deste com outro igarapé que havia e também foi aterrado para ser estrada das Mungubas (hoje Beco do Cano e canal Tamandaré), as águas se bifurcavam no chamado igarapé Juçara e Lago do Piry. Desta maneira, o centro histórico na Cidade Velha era uma ilha: daí nasceria, na segunda metade do século XVIII, a supimpa ideia do major engenheiro alemão Gaspar João Geraldo Gronfelts de fazer de Belém uma Veneza amazônica.

O Lago do Piry terminava num teso de terra que veio a dar lugar à primeira rocinha da cidade e construção da igreja da Santíssima Trindade. Neste sítio dos irmãos Abranches, emigrantes dos Açores juntos com casais de povoadores de Bragança, poderia ter tido início a caminhada de Pedro Teixeira por terra, depois estrada do Murutucum e também estrada de Nazaré rumo ao Una (hoje Parque Estadual do Utinga). Para, então, cairem nas águas do Guamá e subir a remo até às alturas do lugar, mais tarde, de Ourém, e "varar" por terra às cabeceiras do rio Caeté. A fim de pegar canoa e sair ao mar costeando devagar conforme maré e vento até o Maranhão. Não podemos nos esquecer de que, em seus primórdios, este famoso caminho era dos Tupinambás.

Quer dizer, fronteira de conquista da terra dos Tapuias: segredo da aliança dos Tupinambás com os franceses e depois com os portugueses, devido à cobiça de armas de fogo e igaras (caravelas) para vencer a guerra contra invencíveis e malvados Nheengaíbas... Nas paragens do Tocantins o “front” era Camutá-Tapera (Cametá). Lembremo-nos de que, mais de cem anos já em torno de 1723, um certo cacique acusado de ser bandoleiro, aruã de nome "Guayamã" – por suposto herdeiro do primeiro Guamá na história de Cuba, que lá tem reserva natural com este nome – ainda assaltava aldeias de índios "mansos" (cativos) dos portugueses às ilhargas de Belém. Chegava o guerreiro marajoara com seus camaradas ao Aurá, por onde saltava para atravessar ao Furo das Marinhas e capturar índios Murubira, levando-os para traficar por armas e munição. Nesta velha guerra o sargento-mor da Vila da Vigia, Francisco de Mello Palheta, saiu ao encalço de Guayamã, Guaiamar ou Guamá e voltou da Guiana com o café que todo mundo sabe como veio e foi fazer riqueza em São Paulo. Donde, pelos anos de 1960, retornou para fazer contrabando e tirar o pé da lama.

Portanto, Pedro Teixeira carecia caminhar com cautela adestrando-se para sua maior viagem aos confins das Amazônias (1637-1639) e as diversas historiografias baseadas em tais descobrimentos devem agora ser consumidas com moderação. Assim, precisamos compreender que os mensageiros de 7 de Março 1616 não saíram pelo mato adentro, direto ao Maranhão, abrindo trilha a golpes de facão... Pelo contrário, já encontravam provavelmente antigos sendeiros e paragens ao longo do caminho, alternando trechos de água e de terra. Certos pontos habitados por parentes destes índios andejos e "cunhados" onde puderam repousar, contar com outras canoas, remos e comida para continuar a jornada conforme costume de ajuda mútua entre povos tradicionais.

Convém o leitor acompanhar o alferes Pedro Teixeira e seus companheiros pela imaginação. Aproveitar a retrospectiva viagem para ver o peso do espaço na antiga terra dos Tapuias, que é o país que se chama Pará - ele mesmo -, e como ele caminhou ao longo do tempo. Aquela boca de mato na cabeceira do Juçara e Lago do Piry, por exemplo, mais de cem anos depois ainda era um matagal, porém ali teria lugar a construção da igreja da Santíssima Trindade: marco de contato, desta vez, com as ilhas dos Açores... Portanto, Bragança de ultramar, à beira do Caminho do Maranhão plantada por índios catecúmenos e casais açorianos.

Cem anos depois, Belém ainda era uma burgada meio indígena onde colonos e missionários viviam às turras pelo controle de "negros da terra" (índios escravizados). Para o bem e o mal, o iluminismo português produziu uma revolução lá e cá... O Marquês de Pombal no uso do costumeiro nepotismo, mandou seu irmão Mendonça Furtado ao estado do Grão-Pará e Maranhão, ao Amazonas um sobrinho doido para retornar à metrópole. O conflito com os Jesuítas se alastrava e chegou ao Vaticano... Em plena ofensiva o capitão-general e governador solicitou ao reino envio de casais e homens solteiros para povoar a Vila de Sousa do Caeté, em seguida vila de Bragança, em dezembro de 1753.

Mas a migração só começou em 1755 e aumentou em 1759, trazendo gente de Angra do Heroísmo, nos Açores. Dentre estes chegou a Belém José Antônio Abranches com 16 anos de idade, acompanhado de três irmãos menores, órfãos de pai e mãe. José Antônio chegou no mesmo ano em que daqui partia o governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado, que lhe concedera a mercê de trabalhar na lavoura em Belém. Os irmãos Abranches açorianos em geral eram lavradores e devotos do Espírito Santo, tendo ganho terras além e aquém do Lago do Piry onde fizeram horta e pomar com a promessa de construir uma igreja à Santíssima Trindade caso ficassem ricos deixando a pobreza para trás. Dito e feito. Podemos ver que poderia ter sido no porto do Juçara, depois rocinha dos Abranches, que o alferes Pedro Teixeira pôs os pés em terra firme a caminho do Maranhão.


Não havia pressa, mas necessidade de conhecer a floresta ("caaeté", mata densa, a "verdadeira floresta"), atravessando rios e seguindo trilhas dos Tupinambás. Chegaram em São Luís em abril, depois de um mês de viagem. Após entregar a missiva do capitão-mor Francisco Roso Caldeira Castelo Branco ao governador Jerônimo Albuquerque Maranhão, Pedro Teixeira regressou ao Pará desta vez por via marítima trazendo a bordo o capitão Custódio Valente e mais trinta arcabuzeiros, grande número de índios de arco e flecha, mantimentos, fardas e artigos destinados à troca entre índios e colonos. Ficava assim demarcado o território na Amazônia portuguesa entre Belém e São Luís, mais uma possessão portuguesa na região.


© José Varella, 77, nasceu em Belém, ensaista, co-fundador do Grupo em Defesa do Marajó (GDM) e membro da confraria Academia do Peixe Frito.






[ii]“Novíssima viagem filosófica” e “Amazônia latina e a terra sem mal”.
[iii]Ver link http://academiaveropeso.blogspot.com.br/2014/03/porto-caribe-escala-para-o-futuro-das.html
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