#LITERATURA "A voz das mulheres negras na obra de Paulína Chiziane" (Por Lucas Stefano)



Rami é uma moçambicana do sul do país que é casada a mais de 20 anos com Tony, um alto comandante da polícia local. Num dado dia, ela acaba descobrindo que não vem a ser a única mulher a quem o seu marido dedica votos de fidelidade. Com o tempo, Rami acaba descobrindo outras quatro amantes de seu esposo em diferentes regiões do país. Numa decisão pouco comum, ela sai a procura de cada uma dessas mulheres. Pontuada por um humor mordaz, essa genial narrativa construída por Chiziane nos faz ver um vasto leque de tradições de Moçambique, indo dos lugares ocupados por homens e mulheres na sociedade, as distinções entre diversas regiões do país e faz um intercurso sensacional por uma prática ainda hoje muito em voga lá: a poligamia.
Publicado no ano de 2002 em Portugal pela editora Caminho, "Niketche" logo alcançou as graças da crítica e do público, sendo lançado no Brasil pela Companhia das Letras dois anos depois. E o sucesso e prestígio alcançado foi tal que em 2004 recebeu o primeiro Prêmio Literário José Craverinha, com a autora partilhando a honraria com o célebre Mia Couto. De linguagem leve, fluida e sem concessões, a autora cria uma narrativa ao mesmo tempo forte e envolvente, e mostra para o mundo os segredos das alcovas moçambicanas além de dar voz às mulheres acerca do que elas refletem sobre a poligamia e sobre si mesmas.
Dar voz as mulheres e fazer com que a sua própria voz enquanto uma fosse escutada tem sido uma constante na vida de Paulína Chiziane. Nascida em 1955 em Moçambique e criada nos subúrbios de Lourenço Marques (hoje Maputo) numa família de protestantes, ainda jovem militou pela FRELIMO, tendo deixado o partido anos depois por discordâncias com os rumos tomados pelos mesmo ao longo dos anos, bem como devido ao silenciamento das mulheres que participaram ativamente do processo de independência. Iniciou a sua carreira literária nos anos 1980 e em 1984, com o livro “Balada de Amor ao vento”, tornou-se a primeira mulher de Moçambique a escrever e publicar um romance.
Diversos personagens pontuam este livro, que vai sendo narrado do início ao fim por sua protagonista, Rami, a esposa de Tony, um alto oficial da polícia e que com ele já é casada a mais de 20 anos, tendo construído uma vida relativamente estável. Julieta, Saly, Mauá Sulé e Eva são as outras “esposas” de Tony espalhadas pelo país. Interessante notar que muitas delas sabem que Tony tem uma esposa, mas não sabem que, além delas, ele mantém outros casos. Além desses personagens nós temos parentes, filhos, agregados e a figura presente dos mais velhos ao longo da narrativa, vozes de um passado ancestral em que a poligamia não era vista com tanta problematização.
A força do enredo de “Niketche” é uma de suas molas mestras. Da descoberta da poligamia por parte de Rami, a saída em busca das esposas de Tony, os conflitos e depois congraçamento e busca da união enquanto na condição de esposas de um polígamo e depois, mais ao âmago, enquanto mulheres e protagonistas de suas ações, até a tentativa de transpor as barreiras da tradição e do conformismo, são eventos que embalam o livro de maneira magistral, dado sobretudo ao inegável talento narrativo de Chiziane.
 Moçambique ganha aqui um significado simbólico através do entrelaçamento de seus personagens. As tensões entre o norte e o sul com seus costumes, práticas, idiomas (pois não é só português o idioma falado no país), bem como a maneira com que as mulheres são tratadas em cada uma das regiões adquire um colorido crítico e vivaz ao longo da narrativa, no qual o ponto de convergência, Tony, bem como as alianças matrimoniais múltiplas, representam essa unidade apesar das diferenças.
O romance é permeado por diversas tensões além das amorosas como, a título de exemplo, a entre passado e presente. Se para os pais e avós de Rami a poligamia era vista como algo plenamente natural (bem como a submissão permanente da mulher frente ao homem), no presente, pós-independência e Guerra Civil, essa certeza já não é tão cristalizada para a narradora do livro. Aliado a isso temos a própria experiência de vida da autora Paulína Chiziane enquanto militante da FRELIMO e  lúcida da sua condição enquanto pessoa, mulher a cidadã moçambicana.
É inegável a sensação de transformação e reflexão interior que eu senti quando  virei a última página de “Niketche: uma história de poligamia”. Dá gosto de acompanhar o passo-a-passo das peripécias do amadurecimento da personagem Rami e as múltiplas tentativas de avaliar qual o motivo de seu marido Tony não ser a ela fiel. Mais gosto dá ainda ao ver, sobretudo, a sua libertação interior e o chamado por ela proposto à outras mulheres para que ambas se tornem protagonistas de suas próprias ações e destinos, mesmo mediante a tradições que as subjugam tanto. Humor, crítica social e reflexão quanto a valores culturais em um só lugar, costurados por uma escrita simplesmente genial. Você  não vê as páginas passarem. Recomendo com força.

CHIZIANE, Paulína.  Niketche: uma história de poligamia. São Paulo: Companhia das Letras. 2004. 337 pp.
Lido entre os dias 29 e 30 de Maio

O CRÍTICO - Lucas Stefano, 21 anos, é oriundo da cidade de Bragança, Pará, nascido em 18 de setembro de 1995. Desde a infância tem manifestado interesse pela literatura. “O mágico de Oz” foi o seu primeiro livro lido até o fim, aos 8 anos de idade. E daí não parou mais. Concluinte do curso de Licenciatura Plena em História pela Universidade Federal do Pará- Campus Bragança, Lucas Stefano também escreve pequenas narrativas de ficção e não ficção (contos e crônicas respectivamente), estas ainda não publicadas. Além disso, mantém um blog de resenhas literárias intitulado “Ler, Resenhar e Aprender”, onde duas vezes por semana, sempre ás segundas e sextas, fala acerca das suas leituras mais recentes. Atualmente encabeça dois projetos de leitura: “Top 10 melhores livros do Stephen King”, em comemoração ao aniversário de 70 anos do autor, e o “Literatura Africana em Língua Portuguesa”, ao qual a resenha do livro “O último voo do flamingo” faz parte. Este último tem o intuito de divulgar autores africanos do PALOP (Países  africanos de língua oficial portuguesa) para o máximo de pessoas possível.



"As culturas são fronteiras invisíveis construindo a fortaleza do mundo. Em algumas regiões do norte de Moçambique, o amor é feito de partilhas. Partilha-se mulher com o amigo, com o visitante nobre, com o irmão de circuncisão. Esposa é água que se serve ao caminhante e visitante. A relação de amor é uma pegada na areia do mar que as ondas apagam. Mas deixa marcas. Uma só família pode ser um mosaico de cores e raças de acordo com o tipo de visitas que a família tem, porque mulher é fertilidade. É por isso que em muitas regiões os filhos recebem o apelido da mãe. Na reprodução humana, só a mãe é certa. No sul, a situação é bem outra. Só se entrega a mulher ao irmão de sangue ou de circuncisão quando o homem é estéril" (p. 39)


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