#I-MARGEM “Poema sob as distâncias Amazônidas” (Por Carpinteiro de Poesia)


Quantas são as distâncias?
E as estradas?
Que separam estes povos?
Quantos quilômetros temos de percorrer
Por entre rios,
Florestas?
Para que todas estas culturas
Renasçam em nosso sangue.
E estes olhos de meninas
E meninos?
O que nos indagam?
E por que as respostas
Silenciam em nossas bocas?
Acre, Xapuri, Capixaba, Assis Brasil,
Até o Peru, pela Via do Pacífico.
Estas redes, para nós, tem um significado:
A união panamazônica
De nossa grande mãe.
Há sim a diversidade
Quando nos é adversa.
Tudo tão perto mas sempre longe
Numa diáspora de irmãos
Em paisagens.
Estamos sempre a caminho
De um para outro lugar.
Nas redes organizamos um
Novo modus social
E assim nos permitimos a pensar
Nossas práticas.
Ao refletir sobre elas
Nós as solidificamos.
Mas ao mesmo tempo as fragilizamos
Pois que são voláteis,
Jamais permanentes.
Tudo mudo o mundo.
E queremos sim mudar
O estado das coisas.
A começar por nós próprios,
Pelo que nossas cartesianas certezas
Estão agora em suspensão
Junto com a ciência
E suas assertivas.
No âmago desta magia,
Os antepassados sem rostos,
Tradições.
Entre Capixaba e Brasiléia
A terra se abre prometida.
Então eu olho longe, o infinito,
Até onde minha vista alcança.
A este horizonte sem fim.
E sinto uma tristeza
Que se torna poesia.
Aqui é o meu mar
E o meu sertão.
Indago a imagem
E ela me responde
Com silêncio.
E o meu silêncio
É a leitura resignificada em recortes
Epistemológicos, fragmentários
Deste estado de passagem.
O imaginário é ainda mais eterno
Que o inconsciente.
E ele cria raízes
Da boca do Acre até o Maranhão.
E este imaginário
Também recria rios, sem fim.
E com eles, pássaros, bois.
A cobra se move sob a terra,
Guarás sobrevoam os campos Bragança.
Do Marajó, ouço um grito desesperado.
É Alfredo, pelos rumores dos caruanas.
E meu velho comunista Varela
Ensina que há dança nestas luas.
Retumbão e marabaixo, batuque.
Nos terreiros, negros
Invocam Orixás e por isso afrontam
A “limpeza” étnica
E a intolerância ético-religiosa.
É, as estradas são infinitas,
Mais infinitos os rios.
Xingu, Tocantins, Itacaiunas, Tapajós,
Ouço de suas águas
O murmúrio dos antepassados.
Eles me dizem que haverá poesia
Enquanto houver um poeta
Disposto a escrever o seu poema
Com as mãos das árvores.
(Poema escrito em duas partes, nos dias 1 de janeiro, no Acre, e 29 de fevereiro, no avião, entre Amazonas e Pará)

Texto © Carpinteiro de Poesia


                                                       Foto © DRI TRINDADE

Porque, um texto, é como a ponta de um iceberg, a maior parte do gelo fica dentro da gente, essas viagens, conhecer estes lugares, vivenciar, ainda que muito rapidamente, estas realidades, e pessoas, tudo isso nos toca imensamente, nesse momento, se eu pudesse dizer que o eu sinto, mas que mesmo sem conseguir eu insisto em (d)escrever, sinto-me como uma bomba de sentimentos múltiplos, a explodir, em estado de criação, entre o animal, e o cosmológico, jamais humano...
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