#CRÔNICA: O velho da Barca de Ajuruteua (Girotto Brito)


Ajuruteua. Ah, Ajuruteua!

Já disse a alguns amigos que um dia comprarei uma casinha em Ajuruteua e de lá escreverei meus textos. Praia interiorana de brisa forte, mar quente e areia a perder de vista. Menina dos olhos dos bragantinos e doutros seres que já tiveram o prazer de ancorar naquela ponta de península desconhecida.

Várias coisas me encantam naquele lugar: a tranquilidade paradisíaca durante quase todo o ano, as construções rústicas, a humanidade com que se é tratado pelos moradores, a brisa marítima, o fluxo intenso e contínuo das marés, as pescarias noturnas, entre outras. Mas há uma peculiaridade que sempre me deixou curioso e fascinado: a Barca.

Na baixa da maré surgem, encravada na areia, as ruínas de um grande barco de ferro naufragado há anos no furo que dá acesso à Vila dos pescadores. A grande carcaça chama a atenção numa região onde navegam barcos menores e quase sempre de madeira. Hoje, um belo plano de fundo para selfies. Mas qual a história daquela embarcação?

Já perguntei para muitos bragantinos, pescadores da Vila do Bonifácio, moradores da praia, e várias narrativas surgiram com versões completamente diferentes umas das outras. Não sei se alguma dessas versões é verdadeira, mas uma delas, ouvida de um pescador, contava que o grande barco era acostumado a navegar próximo dali, mas mar adentro. Certo dia, encorajado por um romance com uma jovem moradora da vila, o capitão resolveu entrar com o grande barco no furo e navegar até onde os pescadores atracavam seus barcos. A ida, na maré cheia, foi um sucesso. Chegou ostentando sua grande máquina metálica e derretendo de admiração o coração da jovem amada. Na volta, no entanto, traído pela falta de conhecimento com a geografia da região, o capitão foi pego por um banco de areia que o levou ao naufrágio. Desde então, ninguém jamais ouviu falar do capitão, e a jovem, dizem, ao saber do ocorrido, entrou num barco e nunca mais foi vista.

Poético, não?

Verdade ou não, não importa. Provavelmente, após a publicação dessa crônica, aparecerão novas histórias com variações desta ou completamente diferentes. Natural.

Outra história — talvez a mesma — que ouvi de várias pessoas e que coincidiu em gênero e grau foi a do Velho da Barca. Explico. O local onde a Barca ficou encalhada é visitado por muitas pessoas (principalmente durante o veraneio), mas é um local perigoso, pois só se pode chegar lá durante a maré baixa e por um período de tempo limitado. Se o visitante prolongar demais sua visita corre o risco de ser cercado pela maré e não conseguir voltar para a praia. Pois bem, já ouvi diversos relatos de pessoas que foram passear na velha barca naufragada e, por descuido, ficaram tempo demais. Curiosamente, nesses relatos um velho surge além da curva do furo e se aproxima, cumprimenta e alerta para que os visitantes saiam o mais rápido possível, pois a maré está enchendo. O velho aconselha e continua seu trajeto desaparecendo no mangue. Os visitantes voltam, deparam-se com a maré subindo rapidamente e já com a água acima da cintura conseguem chegar à praia. “Um anjo” é como se referem ao velho, agradecidos.

Quando ouvi essa história pela primeira vez, tratei-a como folclore. Na segunda vez, fiquei com uma pulga atrás da orelha. Após o terceiro relato decidi que devia escrever e publicar. Folclore ou não, a Barca está lá, resistindo ao tempo e ao mar, e o velho, esse provavelmente continuará lá para salvar os desatentos. Os que, como ele, deixam-se naufragar na beleza e nos encantos de Ajuruteua.


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