#CRÔNICA: Laços e Bragantinidade (Girotto Brito)

Foto: Flávio Contente. Publicada no Diário do Pará em dezembro de 2016.

Uma palavra que sempre me chamou a atenção desde que me mudei para Bragança é a palavra bragantinidade. Dos lugares por onde andei e morei, nenhum possuía expressão semelhante (o Paulistano não tem uma Paulistanidade, por exemplo). Com o tempo percebi o significado: amor, carinho, sentimento de afeição por Bragança; ação de conservação e manutenção da cidade; respeito pela história e cultura da Pérola do Caeté; sentimento coletivo de luta em prol da cidade-mãe do nordeste paraense. Belo, não? Junto a isso, notei que o bragantino, em geral, possui raízes tão fortes com a cidade que muitas vezes abre mão de um futuro profissional promissor para não ter que sair do seu ninho. É comum ver universitários concluírem a graduação, não encontrarem colocação no município e ainda assim permanecerem, trabalhando no comércio, em funções de menor remuneração. Quando não, cursam graduação em Belém (é o mais longe que se pode afastar de Bragança, parece-me) e, recém-formados, retornam. Há exceções, obviamente. 

Eu, que sempre fui meio cigano, demorei a compreender que laços são esses que prendem esse povo tão fortemente à terra que os pariu. Laços familiares, laços de amizade, laços de amor, laços de segurança. Mencionei acima Bragança como cidade-mãe justamente pela característica acolhedora e protetora que há nela. Os filhos-de-Bragança possuem raízes profundas e bem nutridas, regadas pelo espírito de bragantinidade. Sair da casa da mãe não é uma tarefa fácil, embora muitas vezes seja necessário.

O sentimento de bragantinidade, no entanto, também carrega uma face negativa e de exclusão. Ao passo que acolhe o filho da terra, expulsa os bastardos.

Vou explicar.

Esse sentimento de valorização do que é de Bragança gera naturalmente um sentimento oposto, de desvalorização do que é de fora. Não que o forasteiro não seja bem vindo, mas é bem vindo até certo ponto. Se for turista, ótimo, tem prazo para ir embora. Se não, pode configurar uma ameaça.

Quando, em 2008, chegou a Bragança uma leva de professores, incluindo a mim, de diversas regiões do Brasil para tomarem posse dos seus cargos legalmente conquistados através de concurso público, a reação da comunidade não foi das mais acolhedoras: “não os queremos aqui”, era o que se lia no olhar de muitos bragantinos. A mensagem que nos passavam, diariamente, era a de que chegamos para “tomar as vagas do povo bragantino”. Natural, certo? Quem sabe. Vi vários colegas desistirem, abandonarem sonhos e retornarem para os seus estados.

Eu fiquei. Alguns outros ficaram. Suportamos piadas, pressões, perseguições, até perceberem que não voltaríamos, que Bragança também é nossa, que esse chão gera, mas também acolhe. Nós, forasteiros, recebemos enfim o medalhão invisível com o reconhecimento de bragantinidade, esse sentimento que hoje carregamos e compartilhamos.

Raízes fincadas em solo bragantino se tornam eternas, mesmo que a árvore não seja nativa. 


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