#CARPINTARIA “O Cinema e a antropologia dos i-marginários amazônidas” (Por Francisco Weyl)



Porque, um texto, é como a ponta de um iceberg, a maior parte do gelo fica dentro da gente, essas viagens, conhecer estes lugares, vivenciar, ainda que muito rapidamente, estas realidades, e pessoas, tudo isso nos toca imensamente, nesse momento, se eu pudesse dizer que o eu sinto, mas que mesmo sem conseguir eu insisto em (d)escrever, sinto-me como uma bomba de sentimentos múltiplos, a explodir, em estado de criação, entre o animal, e o cosmológico, jamais humano...


“Sob as distâncias amazônidas”

(Para Tião Viana, João Alberto Capeberibe e José Varela)


Muitas pessoas até percorreriam tranquilamente as cidades de Rio Branco e Epitaciolância (Acre), Santarém (Suruacá), Altamira, Rondon do Pará, Abel Figueiredo, Marabá, Ilha das Cinzas – em Gurupá (Pará), Macapá (Amapá), e Anori (Amazonas), entretanto, muito poucos atravessariam diversos municípios amazônidas, com o objetivo de produzir/ realizar um documentário, revezando-se nos papéis de motorista, assistente de câmera, operador de áudio, assistente de produção, produtor, diretor de fotografia, repórter e realizador.
E foi exatamente isso que eu fiz: de avião, de carro, de barco, e algumas vezes a utilizar todos estes transportes, em 30 dias, entre os dias 31 de janeiro e 29 de fevereiro de 2012 – com milhões de ideais na cabeça e algumas câmeras nas mãos, para fazer uma verdadeira epopeia cinematográfica chamada (Doc) “Rumo Norte”, na altura, na condição de ativador de Rede do Programa Nacional de Inclusão Digital para as Comunidades - Telecentros.BR.
Na Amazônia, as distâncias se tornam ainda muito maiores do que de fato o são, uma vez que algumas comunidades, pela ausência de estrutura, ficam isoladas, acessá-las significa de alguma forma incluí-las, mas, para que se incluam, necessitam, elas próprias, segundo os seus próprios desígnios, acreditar no imaginário e se apossar das suas realidades, para que os seus pensamentos, as suas produções intelectuais, e as suas culturas, sejam por elas interpretados – para além de vivenciadas em suas experiências espirituais, e empíricas – com os aparatos tecnológicos aos quais tem acesso e/ou que lhes são disponibilizados.
Dentro de uma perspectiva humana, há um consenso entre os jovens que as suas vidas serão marcadas pela experiência de aprendizado e das relações e afetos que construíram no Telecentros.BR, participar de um programa que lhes facilitou o acesso e o desenvolvimento dos seus conhecimentos no âmbito da cultura digital, sem a qual não poderiam se pautar a si próprios, enquanto fonte de conteúdos teóricos e intelectuais, informações acadêmicas, e turísticas, pela via das imagens e dos imaginários narrados pelas oralidades do lugar que habitam. E estas meninas e estes meninos - monitores, com toda a paixão pela vida e pelos sonhos que sonham e pelas perspectivas que projetam, vivem com simplicidade por estes rincões inimagináveis deste país continente chamado Amazônia, entretanto, é como se estivessem à revelia dos fenômenos que sucedem neste processo – nos espaços e em torno dos espaços onde os telecentros estão instalados.
Se as demandas não chegam aos gabinetes aclimantados de Brasília amparadas nas ações de movimentos sociais, as políticas públicas não se tornariam respostas de um estado que afinal de contas faz estatísticas em benefício próprio e apenas para garantir a sua sobrevivência enquanto opressor – daí porque o estado, afinal de contas, quando chega, ele destrói. Aos intelectuais, às lideranças, aos militantes destas comunidades, compete-lhes compreender este processo político-social, de forma a que o povo se empodere do que é seu, por direito.
E o direito à inclusão digital e simultaneamente à produção, ao consumo e à interpretação da informação, é, nos dias de hoje, um dos mais fundamentais a serem garantidos à civilização, até porque vivemos uma revolução sem escala nas relações humanas, caracterizada – se não pelo predomínio absoluto, ao menos por uma visibilidade quase sem fim da Internet, e de suas redes sociais, a gerar tendências, fortalecer e enfraquecer as lutas sociais, que se dão no cotidiano das cidades, e dos campos, neste ciclo inexorável da globalização.
A questão que se coloca aos pedagogos, cuja responsabilidade com a educação no seu sentido mais amplo é como chegar até estes jovens e também a todos estes que sequer tiveram qualquer tipo de acesso - de forma ética, didática e responsável, numa perspectiva revolucionária. No nosso entendimento, este programa – aqui no Norte – tem esta direção.
Sabemos que um monitor não é apenas um monitor, mas uma pessoa, uma pessoa normal ou com alguns poderes mas sempre uma pessoa.
Então é isso o que nós queremos mostrar, um cara cheio de esperança.
Um programa que permite às pessoas, à cidade, à comunidade, á entidade, a possibilidade de continuar as suas trajetórias, só que com diferenças.
E se todos somos iguais por que ou como fazer esta diferença?
Porque o que nos diferencia não está na nossa individualidade e sim na dissolução do que fazemos pessoalmente pelo coletivo, pelo que nos tornamos, por assim dizer, anônimos.
E é este anonimato o construtor do social.
É pois uma permissão e para mim neste momento uma revelação.
Assim é a poesia.
Fazer um documentário sobre a ação do programa na Amazônia é uma pretensão, primeiro, porque a Amazônia tem uma extensão tanto imensa quanto infinita, segundo, pelo orçamento, reduzido, razão pela qual não poderíamos abraça-la, terceiro que, por isso mesmo, tínhamos que definir aonde ir e considerar o percurso de cada um dos telecentros e de seus monitores no âmbito do programa.
Nossa opção foi tanto pela diversidade geográfica quanto temática, então, pensamos, não podemos ir a um lugar e ignorar o outro que lhe é vizinho. Temos de ir aonde o projeto vingou e aonde ele naufragou. Na zona rural e na zona urbana. Falar com jovens, trabalhadores rurais, mulheres, pescadores e policiais.
Ir tanto à barbárie quanto à civilização. Da placa de energia solar ao óleo díesel. O conhecimento tradicional e as novas tecnologias. O pescador e o professor. A pateira de Suruacá e o doutor da UFPa. 
Afirmar os movimentos sociais e simultaneamente a institucionalidade. Diversidade e democracia. Valorizar a luta da mulher, defender Belo Monte, estimular a segurança pública.
Chegar a um lugar aonde o gestor está contente e ao mesmo tempo a um outro com um gestor nada satisfeito. E assim observar e revelar para quem afinal de contas se destina esta plataforma que é o Telecentros.BR.
Falar da inclusão digital para milhares de excluídos numa extensão territorial aonde nem 4% da população acessa a Internet.
Foi um desafio. E nós o aceitamos.

Belém, 1 de março de 2011

Texto © Francisco Weyl

                                                                       Texto © DRI TRINDADE
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