#AGUALUSA "De como os africanos inventaram o mundo" (Resenha de Lucas Stefano)


Acompanhamos a narrativa do outrora padre jesuíta Francisco José da Santa Cruz e de sua agitada vida pontuada pelo abandono da fé católica e do renegamento ao governo lusitano a partir do momento em que constrói família e acaba por servir como secretário de N'zinga, ou Ginga, esta enquanto princesa e posteriormente rainha de Matamba. Transcorrendo durante o período da União das Coroas Ibéricas e adentrando no da invasão do nordeste brasileiro pelos holandeses (aqui chamados de “flamengos”) o livro nos apresenta no formato de crônica um vasto panorama social, cultural e político do século XVII.
José Eduardo Agualusa Alves da Cunha é um escritor angolano nascido na cidade de Huambo no 13 de Dezembro de 1960. Tendo se formado em Agronomia no Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa, deu início a sua carreira literária no fim dos anos 1980. Pertence á novíssima geração de escritores do pós-independência das nações africanas colonizadas por Portugal. Seus textos geralmente surgem aliados a doses maciças de fantasia e recriação histórica, urdidas através de volumosa pesquisa.
E recriação histórica é a palavra de ordem em “A Rainha Ginga”, publicado em 2014.  Tendo como inspiração uma personagem conhecidíssima na história de Angola, Agualusa, através do auxílio de historiadores e contando com a revisão e comentários de célebres escritores durante o processo de redação do livro, conseguiu construir uma narrativa instigante e envolvente. A mescla de personagens fictícios e reais é  de tal modo intensa que as fronteiras entre eles chegam até mesmo a desaparecer, enquanto vamos acompanhando as aventuras e desventuras de Francisco José da Santa Cruz.
Além do nosso narrador, diversos indivíduos das mais variadas nacionalidades e origens compõe o vasto quadro de personagem deste livro do senhor Agualusa: Domingo Vaz, auxiliar da Rainha Ginga oriundo do Brasil; Luís Mendes de Vasconcelos, governador e Capitão Geral de Angola, N’zinga Mbandi, princesa do reino de Matamba e posteriormente intitulada Rainha; N’gola Mbandi, irmão de N’zinga e então rei de Matamba; Silvestre Bettencourt, cruel senhor de engenho e Maurício de Nassau, administrador dos domínios da Companhia das Índias Ocidentais no nordeste brasileiro.
Se fazendo valer do recurso do narrador em primeira pessoa, somos levados através da perspectiva do letrado Francisco José da Santa Cruz a conhecer alguns dos mais importantes eventos políticos do século XVII no que diz respeito as relações entre Portugal e as suas  colônias, bem como acerca do protagonismo da própria Rainha Ginga enquanto sagaz diplomata. Esse é o fio condutor da história e que explica com excelência o subtítulo da obra. Aqui vemos uma Rainha Ginga política, guerreira e protagonista de suas ações  enquanto figura central da história de Angola e de todos que a rodeiam.
O romance centra a sua ambientação em Angola e no Brasil. No núcleo angolano temos o Reino de Matamba (1631-1744), com seus costumes, crenças, práticas culturais e militares, e que tanto causam espanto a Francisco. Na cidade de Luanda, posto avançado do governo português em Angola, temos o centro das primeiras relações diplomáticas de Ginga com os lusitanos, na tentativa de firmar aliança política com os mesmos. Já no Brasil, em especial em Pernambuco, vemos o crescimento das ambições da rainha africana quando a mesma busca firmar acordo com os holandeses, bem como todo o desenrolar do conflito entre Ginga e Portugal.
Apesar  de não deixar explícito, quase duas décadas se passam ao longo da história, da chegada de Francisco em território angolano “nos idos de 1620” até a retomada de Angola das mãos dos holandeses  pelos portugueses em 1648. Além disso, logo no epílogo, temos indício de que o narrador sobreviveu à morte da rainha Ginga, contando a sua história já na velhice, com mais de 60 anos de idade.
“A Rainha Ginga” de José Eduardo Agualusa, à exemplo de Pepetela, nos mostra uma revisitação do passado nacional e releitura do mesmo pelos olhos da Literatura. No caso dos países africanos falantes de Língua Portuguesa, história e literatura se mesclam de maneira singular. Em suma, é um excelente livro que merece ser lido com calma e carinho. A linguagem de cronista do século XVII pode a princípio dar algum trabalho, embora tal dificuldade seja suplantada logo após algumas páginas pela deliciosa narrativa proporcionada pelo autor. Vale a pena a leitura. Recomendo.


AGUALUSA, José Eduardo.  A Rainha Ginga:  e de como os africanos inventaram o mundo. Lisboa: Quetzal. 2014. 288 pp.



Lido entre os dias 08 e 10 de Junho de 2017


O CRÍTICO - Lucas Stefano, 21 anos, é oriundo da cidade de Bragança, Pará, nascido em 18 de setembro de 1995. Desde a infância tem manifestado interesse pela literatura. “O mágico de Oz” foi o seu primeiro livro lido até o fim, aos 8 anos de idade. E daí não parou mais. Concluinte do curso de Licenciatura Plena em História pela Universidade Federal do Pará- Campus Bragança, Lucas Stefano também escreve pequenas narrativas de ficção e não ficção (contos e crônicas respectivamente), estas ainda não publicadas. Além disso, mantém atualizado a partir de suas leituras o blog de resenhas literárias intitulado “Ler, Resenhar e Aprender”. Atualmente encabeça dois projetos de leitura: “Top 10 melhores livros do Stephen King”, em comemoração ao aniversário de 70 anos do autor, e o “Literatura Africana em Língua Portuguesa”. O intuito é divulgar autores africanos do PALOP (Países  africanos de língua oficial portuguesa) para o máximo de pessoas possível.
 




"— Serás sempre padre. Um bom padre, que os há tão poucos. A ganância é que move o mundo. Sem essa ganância que tanto te aflige, o homem não seria mais do que estes pobres pássaros. — Disse isto apontando para duas pombas verdes que ali se entretinham, num ramo próximo, bicando-se com carinho. — A ganância arrancou o homem da selva e há de levar-nos às estrelas.
— Quando estivermos nas estrelas teremos saudades da selva.
— Acredito que sim — resignou-se o antigo pirata. — Entretanto vou recolhendo a prata que puder."(p.261)


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