A Charge, definitivamente, virou profissão de Risco. (Por © Paulo Emmanuel)


“Já começamos dando trabalho pros “homi”. Assim inicia-se a história da primeira charge imprensa publicada no mundo. Feita em litografia pelo francês Honoré Daumier em 1820.  Uma charge de Daumier fazendo uma crítica feroz ao imperador com sua caricatura Gargântua, que ridicularizava o rei Luís Filipe e a sociedade francesa que explorava a população,  lhe proporcionou  ir para prisão por três meses em 1831.
A charge tem por função a crítica social, o confronto. É o editorial mais autêntico de  um veículo de imprensa, e por muitos anos, um espaço nobre dos jornais. O que os jornais publicam em todo noticiário, a charge realiza num único desenho, daí,  tal sua importância e imponência num veículo de comunicação.
Essa questão levou a direção do gigante “New York times” a fazer uma declaração inusitada: “Não podemos ter um chargista fixo. Não podemos editar uma charge, logo não podemos dar tanto poder nas mãos de um único homem.” Nisso os Syndicates intervieram e questionaram a posição do jornal que passou a revezar os chargistas associados até a dispensar todos recentemente.
A charge no decorrer da história vem tendo embates com o sistema de uma forma visceral. Muitos chargistas foram perseguidos pelo exercício da profissão. Na ditadura militar brasileira, os chargistas foram bastante censurados e perseguidos. O cartunista carioca Jaguar, um dos editores do lendário tablóide “O Pasquim”, após ser “convidado” para depor no DOPS, ouviu essa frase de um general:  Senhor Jaguar, o sr. de novo fazendo fazendo garatujas?”
 O governo do Bashar Assad esmagou as mãos do cartunista sírio Ali Ferzat ,em 2012, com os agressores lhes dizendo que só assim ele não desenharia mais. Logo após fechar o jornal “O Acendedor”. Toda essa repressão teve seu ápice que culminou no assassinato de quase toda redação do jornal satírico de charges francês CharlieHebdo, em 2015. Que em 7 de janeiro completou dois anos do ataque terrorista. Entre os mortos estavam três importantes cartunistas franceses, dentre os quais, o genial Wolinski. Atualmente o caso mais significativo foi a demissão do jornal “A Tarde” do chargista cubano radicado no Brasil, Osmani Simanca, depois de uma publicação do Geddel Vieira escalando um edifício tal King Kong.
Desde a época do regime militar entrando nos anos 80 e 90, o chargista brasileiro foi se confrontando com a realidade da imprensa e do capitalismo tupiniquim. A charge na grande imprensa, ainda tendo alguma importância, passou a ser vista como um perigo aos acordos comerciais das empresas e dos governos que sustentam essas empresas e passou a ser controlada. Mais que controlada, o chargista brasileiro adquiriu o hábito da autocensura, ou seja, sabia o que podia ou o que não podia fazer, simplesmente por que isso lhe garantiria o emprego.
Os tempos mudaram, os veículos de comunicação se atrelaram cada vez mais e muitos chargistas foram dispensados da grande imprensa. Mas, novamente a charge ganha um novo fôlego, um novo canal onde podem exercer livremente sua profissão, que são as redes sociais. - Mas trabalham de graça!  dizem uns.  
São adaptações aos novos tempos e novas formas de ganhar dinheiro. A rede está aí pra quem tem novas ideias e coragem para enfrentar os novos tempos. Quem acha que a “grande impressa” ainda é nicho de cartunista ainda está esperando o “novo Pasquim” voltar e perdendo as oportunidades que surgem a cada dia.

© Paulo Emmanuel 
(É bicolor, cartunista, jornalista, chargista, artista plástico e Diretor de cultura do IPF-DH ( Instituto Paulo Fonteles de Direitos Humanos)




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