#CRONISTA "A alma retirante de Lucas Stefano"

O meu presente remonta a um passado de chegadas e partidas. Décadas antes de eu ter nascido, para ser mais exato. Adotado pela terra em que pus meus pés, tenho um sotaque que tem origem quinhentos, mil quilômetros a leste da cidade onde vivo. A saga dos Costa é uma no meio da multidão. E, quando os maranhenses aos milhares atravessaram ao longo de gerações o Rio Gurupi, lá estava eu, meu presente potencializado naquele passado que este ano completa exatas quatro décadas.
Poderia recuar até bem antes, no inicio dos anos 1940 no interior do município de Turiaçu, Maranhão, quando Manoel Costa, peão de gado, roubou o coração da filha do seu patrão, o fazendeiro mais rico da região. A paixão dela por ele foi tão forte que, ao completar a maioridade, Camila passara 100 das reses que lhe pertenciam para o nome de Manoel. Mal suspeitava seu pai que o peão que com sua honestidade fizera o patrão prosperar, estava de mala e cuia pronto para partir com sua única filha mulher. Quando Manoel e Camila se casaram, já na localidade vizinha, o pai da moça, que á moda dos coronéis tinha uma influência política local quase que divina, não mandou matar o noivo da moça, mas fez dobrar o toque de finados nos sinos da capela na hora em que Camila e Manoel oficializaram matrimônio.
Após anos juntos, tiveram os primeiros filhos. Ela, alva dos olhos claros, descendente de portugueses. Ele, um homem queimado pelo sol, cearense vindo das redondezas do Crato. Tiveram filhos, um deles tão bonito (herança materna) que Manoel acredita que matou o pobre de quebranto quando, com sete dias de nascido, o anjinho desceu à cova. Diz-se até hoje que no Funil a força dos feitiços é grande. Manoel não se fiava muito nessa conversa. Mas, dez anos depois de casada, quando Camila morreu com a perna direita podre, um mês depois da picada de um inseto, por volta da época da terceira quebra do comércio que Manoel montou com o dinheiro obtido com a venda de parte das reses, a presença de um defumador todo mês passou a ser rotina na casa dos Costa.
Homem novo, Manoel se juntou com Benedita, maranhense de nascimento, e babá de sua prole com Camila, e junto com ela teve seis filhos. Seriam sete, se a menina caçula não tivesse aos dois anos de idade sido levada pela Erisipela. Como os Buendía/Iguarán de  García Márquez ou os Buddenbrooks de Thomas Mann, a desgraça e a decadência sempre foram companhias constantes na casa dos Costa. Isaque foi sepultado como indigente após não resistir ao tratamento com eletrochoques em um manicômio de São Luis. Tinha 20 anos de idade. Hulda, a contragosto de Manoel, se juntou com um beberrão de batia nela um dia sim e no outro também. Após uma briga durante a noite com o marido na porta do barracão de festa em que ela vendia cocada para se manter, resultando disso um talho de navalha na cara do cachaceiro, Hulda acabou fugindo de casa, vivendo de vender o próprio corpo nas bandas do Pará.
Salomão não enlouqueceu, mas passou tanto tempo com ideias mirabolantes de sonhos irrealizáveis, que Manoel (já aleijado por conta da chifrada de um bode preto no joelho direito) ficou se perguntando se seu filho preferido não havia pisado no guaxinim branco em que o rebento louco, agora enterrado em local desconhecido, havia dito que um dia tinha mijado encima. Nezilda se juntou com um trambiqueiro, e apesar dos apertos até que teve uma vida feliz. Até o momento em que agonizou seis anos padecendo de um osteossarcoma tão violento que tornou possível ver as suas vísceras através das feridas que se formaram em suas costas. Morreu encima dos ossos, tendo apodrecido de corpo inteiro ainda em vida.
Mas, anos antes disso, em certa madrugada, uma numerosa comitiva aportou na ladeira á direita da casa em que os Costa moravam, já na localidade de Mutuóca. Chefiando a comitiva e o diálogo com o dono da casa, estava um senhor armado com uma cartucheira de dois canos. Não demorou Manoel a saber a causa da visita: Sabino, um dos filhos mais velhos seus, havia estuprado Léia, a filha evangélica do homem armado. Tendo conhecimento de que Manoel ainda tinha gado, o homem deu a ele duas escolhas: churrasco ou café preto. Uma semana depois, Mutuóca inteiro foi convidado para uma churrascada pródiga: Sabino e Léia haviam se casado. Léia purgou todos as desgraças em função dessa união, até que, quarenta anos depois, Sabino morreu pesando metade do que pesara em vida, vítima da metástase de um câncer de próstata descoberto tarde demais.
Retornemos aqueles que ainda restam: Salomão e Izabel. Enquanto estava em São Luiz, tratando da segunda fratura do joelho que já era a causa de seu aleijamento, Manoel soube por telegrama que Salomão se casara com uma mulher detestada pelos Costa do fundo da alma. Pior: usando o dinheiro do comércio firmado com a venda de parte das reses de Camila, há 20 anos falecida. Quando pôs um pé em Mutuóca, após horas de barco, Manoel fez de Salomão um homem deserdado de todas as suas posses de direito. A partir daí, e do parto de 5 dos seis primeiros filhos dele com sua esposa, Salomão foi saber, morando na palhocinha dada como casa por Manoel, o aperto que é sustentar uma família, coisa que ele como filho predileto outrora residente no casarão de dez cômodos dos Costa não fazia a mínima ideia.
Anos depois, na sétima quebra do comércio, às portas à época do que seria a pobreza e com a casa esvaziada dos filhos (Isaque morto, Hulda sumida, Nezilda morando no Pará, Salomão e Sabino com as suas esposas e famílias constituídas) Manoel chegou ao estágio terminal de um câncer de estômago que o degradou de tal modo, que urubu só não baixava no terreiro do casarão quando ele vomitava, por que as golfadas ocorriam á noite. Mesmo assim, as corujas empoleiradas no cedreiro próximo não deixavam de entoar o seu canto do mau agouro. Foi quando ele se voltou para Izabel. A caçula, que desde os 9 anos de idade tivera sucesso criando porcos, agora aos 20 desejava continuar os seus estudos. Manoel, já em estado prévio do leito de morte, num gesto derradeiro de partilha, pegou todas as economias que sobraram dos anos de fartura alternados por quebras no comércio e depositou nas mãos da rebenta mais nova.
Benedita também fez a sua parte. Pegou as 5 reses restantes, filhas  das outrora 100 cabeças iniciais, e vendeu todas, juntando com isso dinheiro para as passagens de duas pessoas para as bandas do Pará. Quando Sabino e Salomão, que ainda residiam em Mutuóca com suas esposas e filhos, buscaram contestar a herança ao darem pelo sumiço das reses, Isabel e Benedita já botavam os pés em Viseu e Manoel falecia, tendo pedido ser enterrado antes de completadas as 24 horas, evitando assim o risco de estourar durante o velório.
O restante da história é um daqueles arremates com feitio enganador de um epílogo, já que é sabido que a vida não respeita convenções literárias. Benedita falecera dez anos depois ter se mudado para o Pará com Izabel, por complicações em decorrência do diabetes. Hulda, não pôde ver a chegada da morte. Falecera cega, aos 60 anos da mesma doença que matara a mãe. Salomão ainda está vivo, só que com o tempo também desenvolvera a doença que matou a mãe e uma de suas irmãs. Hoje toma duas injeções de insulina por dia e mora com a esposa à dois quarteirões do local de onde o autor dessa narrativa a escreve. Izabel conseguiu prosseguir os estudos. Fora feirante, servente, tecelã de rede de pesca, parteira, e por fim, professora pelo estado. Se aposentou por tempo de serviço, e atualmente ocupa o tempo jogando bilhar online, criando galinhas e fazendo chopp. Dos Costa, filhos de Manoel e Benedita, que se sabe, foi a única que de fato prosperou. Izabel é minha mãe.



LUCAS STEFANO

Lucas Stefano é graduando do último período do curso de Licenciatura Plena em História pela Ufpa- Campus Bragança. Desenvolveu desde os seus 15 anos forte interesse pelas literaturas brasileira, russa e francesa do século XIX. Em janeiro de 2017 retomou com um passatempo dos idos de adolescente: manter um blog. Surgia assim o “Ler, Resenhar e Aprender”, blog especializado em resenhas literárias. Nele, Lucas Stefano mantêm os projetos de leitura “Literatura Africana em Língua Portuguesa” e “Top 10 melhores livros do Stephen King”. “Alma retirante”, de sua autoria, texto entre a crônica e o conto, fora inspirado na trajetória de 70 anos da família Costa, da união entre seu avô Manoel e Camila, depois entre Manoel e Benedita até o momento em que essas foram contadas nos parágrafos anteriores. Além do mais, Lucas Stefano também é um dos colaboradores periódicos do Blog Tribuna do Salgado.

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Blog: https://lreaprender.blogspot.com.br
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