Tapada da Carvalinha, Mirás, Marco de Canavezes, 10 de Novembro de 2001

... eu estarei a morrer de saudades, estarei a morrer
e o que me deixará morrer será esta saudade do açaí,
da maniçoba, de ajuruteua, do mestre verequete, esta
saudade que me preenche o vazio e que nunca me
abandona pois me faz sentir sozinho, de todo o caso,
sinto que é sozinho a única forma que sinto-me bem
neste mundo, terei homens e mulheres ao meu lado,
amar-lhes-ei, serei amado, mas o meu coração estará
amordaçado pela solidão, a minha alma será prisioneira
da solidão, será na solidão que eu sentirei o que eu
sou e então saberei quem eu sou mas me saberei
perdido, por saber estarei perdido, perdido ao sabor
de um saber, graças à deus que o homem inventou um
deus a quem chamou de arte, um deus ladrão das
verdades que não se pretendem como tais, um deus
antagónico em si próprio, um deus metafísico,
anticientífico e anti-racional, um deus alucinado e
louco, um deus que só é deus porque deus já não é
mais, um deus que nasce, mora e morre no mito, um deus
dionisíaco, um deus sobre o qual os homens de cultura
até poderão ouvir falar, entretanto, nunca terão
capacidades de perceber, porque têm medo, porque a
cultura é produto do medo, porque a cultura segue uma
estrada rectilínea e uniforme, com regras arcaicas que
se assentam no senso comum dos vermes burgueses
entediados que vivem às custas dos discursos modernos
e que são alimentados pela podridão das informações
académicas e mediáticas, estarei à morrer e com
saudades do açaí, portanto, morrerei transvalorado,
mergulhado neste mundo dilacerado, com o qual cortei
mas deixei encravado este cordão umbilical que me liga
à minha terra, há 6 mil quilómetros de distância
geográfica e mais ainda uma outra distância que é
maior mas que não se quantifica, uma distância
espiritual, que me faz ouvir o som das canções do
walter freitas, do nilson chaves, do eduardo dias, do
ronaldo silva, sons embalados pelo vento e com gosto
de chuva, uma distância na saudade que me faz sentir o
cheiro das coisas que só tem cheiro se cheiro for na
minha terra, o cheiro dos poetas, das bandas de rock
efêmeras, do mosaico de ravena, do  reggae do toni
soares, estarei a morrer mas com toda esta vida que
não me deixará esquecer a vida, porque viver ausente é
guardar em si os olhares daqueles que amamos, as
sensações desconhecidas, porque há coisas que não vejo
e no entanto vejo muitas coisas que não existem, sou
pois visionário,  aprendi que os mestres não morrem,
outro dia disseram-me que não tenho sentimentos, que
não sou capaz de amar ninguém, mas o que seriam de
meus sentimentos se eu andasse por aí a convencer as
pessoas de que os sinto?, eu e somente eu é que sei o
quanto é profunda a minha alma e que é sem fundo o
poço da intensidade das coisas que eu sinto, nós os
poetas não nos prendemos a nenhuma necessidade de
comunicar estados de espírito, sentirei, pois, esta
saudade lusíada, trágica, épica e mítica, sentirei
como poeta esta saudade que está a me matar sem me
deixar morrer, mata-me com o prazer de sentir na
saudade os prazeres das coisas que só existem se
existirem na minha terra, amo o brasil, amo ainda mais
o pará e muito mais bragança pois lá é onde nasci, com
as benções de são benedito, à beira do caeté e de
ajuruteua, entretanto, atravessei o mar para encontrar
portugal, para estar hoje à sombra das oliveiras na
quinta do sério fernandes, em marco de canaveses, à
beira do rio tâmega e ao pé da serra do marão, sob as
benções de deus e do poeta teixeira de pascoaes, em
comunhão animalesca com os meus cães corisco e dada,
que afinal de contas são a minha verdadeira família
...

Francisco Weyl
Carpinteiro de Poesia e de Cinema

Tecnologia do Blogger.