#NARRATIVA "O dia do meu enterro em Tentugal" (Carpinteiro de Poesia)

Este é o meu enterro, eu já estou morto, e estava desde quando pensei em fazer este filme. Aqui é a Macondo dos Weyl, Tentugal. E neste cemitério abandonado repousam os ossos de meus antepassados, já não mais identificados nestas campas decompostas, mas isso foi quando eu voltei lá, depois, neste tempo, em que eu pensava que ei nem tinha morrido. Este que segura a alça direita de meu caixão é meu irmão, o Pete, José Raimundo, já morto, eu lembro dele, fui ao enterro dele, acho que chorei tanto sua morte quanto quando eu descobri a própria morte, que isso aconteceu quando meu avô morreu e que eu nem sabia se eu gostava dele, tanto quanto àquela hora que seu corpo se cobria ao barro, chorei a sua morte. Mas, o ato de chorar não tem nenhuma relação com a morte, se muito, com a morte da lágrima, choro emocionado de tudo, de filme a música, olho d’água, praia. E este outro meu irmão, que segura a outra alça do meu caixão, ele também já morreu, o Nonato, eu fui ao enterro dele, e não sofri tanto com sua morte, quanto sofri um pouco com a pré-morte de minha mãe, que morria ver e enterrar seu filho morto. Morrendo, também, morrendo, morremos todos, ali naquele dia, e eu chorei muito também a sua morte. Quando o Nonato morreu, o Pete ainda estava vivo. Eu ainda sonho muito com eles e no sonho sempre estou a lhes dizer que tem de se conscientizar de que estão mortos. Mas agora eu já nem sonho, porque morri, sendo já o próprio sonho, porque quando se morre é que tudo se torna sonho. Choro desde menino, e como nunca deixei de ser menino, eu acho que nunca vou parar de chorar. Recordo que chorei muito no casamento de minha irmã mais velha, Irene, aquela ali atrás, a chorar, ao lado da Dica, elas não são gêmeas mas são alma-gêmeas. Já morei muito com elas e sempre volto a casa delas como naturalmente retornaria a casa de meus pais como agora retorno neste dia de meu enterro, a esta casa eterna, em que revejo esta cidade na qual jamais estive, e nela me estando, quando como sendo, eu sou assim, minha alma passeia naquele rio à frente, o Caeté, que me banhou quando eu nasci, lá em Bragança, num dia de forte chuva. Minha mãe disse que ela quase morria, mas ela não morre nunca, quem morreu foi eu, mas eu já estava morto. E me penso vivo, e volto, e sigo a estes lugares que nem sei onde estive, se é que estive neles, e neles, eu fui. O mais humano dos poetas vivos, meu irmão ali atrás, o José, que é gêmeo do Nonato, não segura nenhuma alça do meu caixão, ele não gosta de enterros, mas aqueles dois ali, sim, o João e o Paulo, eles que seguram estas duas outras alças, esses três, eles também estão vivos. Tentugal. Aqui estão enterrados a maioria dos meus antepassados pela linhagem materna. A câmera passeia nesta foto. No casamento de papai e de mamãe, eu ainda nem nasci. Foca, desfoca, os convivas, em pose. Minha Tia Cirene, que já morreu, mas ainda é poeta, viva, está menina nesta fotografia. Ela amava mamãe, mamãe amava todo mundo. E ainda ama, porque não morreu. Seus olhos brilham nos meus sonhos. Este aqui é meu avô, ele se chamava Bento Francisco da Costa. Minha mãe dizia que meu nome ia ser Bento Francisco da Costa Neto por causa dele, mas depois alguma coisa franciscana lhe aconteceu que ela mudou meu nome para Francisco de Assis. Era o dia de casamento de meu pai com minha mãe. Esta é minha avó, mãe do meu pai, Dona Maroquinha, ou Mãe Quinha, como lhe chamava a minha mãe, Josefa que já vai ali aparecer. Mãe Quinha mandava no pai Bento, meu avô, que iria me dar nome ao seu nome. Essa raiva, esse ódio, essa força que tenho no meu coração eu herdei do meu pai, o Zenito, que herdou isso tudo, assim ouvi dizer, dessa senhora Maroquinha, que era professora, profissão a qual exerceram na família, pela ordem, minha mãe, e meus irmãos Irene, Raimunda, Nonato, João, Paulo, eu e minha tia poeta, escritora, compositora (e louca) Cirene Maria da Silva Guedes, que ocupa uma das cadeiras da Academia Bragantina de Letras e Artes, da qual um dia, se Deus quiser, também participarei. Bem, a história da Tia Cirene vale um capítulo à parte de qualquer história ou ficção de nossa família, então não vou contar, agora, apenas dizer que ela é a louca, a mais louca, de todos nós, que somos filhos destes dois aí, Zenito e Zinha.  Maria Augusta, a pessoa mais doce do mundo, tia de minha mãe, mulher que a criou, e a qual chamávamos de Vovó. E que saudade da Vovó, dizer esta palavra, recordo dela, mas não da palavra, e sim da Vovó, embora ela só exista nomeada pela palavra, na memória, mas, isso também é outra história. Esta é a Vovó-Augusta, que era casada com este aí, o Odorico Alves da Silva, também chamado de padrinho, o homem que criou a mãe, nosso avô. Odorico subia em árvores com quase 90 anos. Augusta era diabética. Vivemos boas memórias em Bragança, juntos, e nas memórias, nas narrativas dos irmãos que se deslocavam desde Bragança para Bel[em, cada um com a sua experiência, revelada. Odorico era do tipo de pessoa que todas as vezes que eu falo dele eu me orgulho, pela sua personalidade, pela sua altivez, rigor, coerência, determinação, bondade, solidariedade, dignidade. Pensa num ser humano nascido numa terra que fica no meio do nada e ele nada tem, apenas uma montaria para levar e trazer seus produtos, e sem nada, mas mesmo assim ele se casa com uma mulher, a dona Augusta, que tomava conta de duas crianças, duas irmãs, mamãe e titia Mimosa, que era mãe de meus quinze primos brasilienses, e eles também tem sua própria história, que é nossa, dos que ficaram no Pará, e dos que tendo daqui saído, também aqui ficaram, com suas memórias e suas histórias. Eu os vejo a todos neste enterro, como festa, morro, acordo.

© Carpinteiro

 

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