#ASSASSINATO “Sarau Multicultural do Mercado resiste aos atentados da gestão Municipal em Belém”

A resistência do projeto Sarau Multicultural do Mercado contra um Estado que desrespeita as leis e exclui as culturas populares urbanas foi sintetizada em carta divulgada pelo poeta Jorge André Silva, e que circula diversas redes sociais.
Digno de ser utilizado em diálogos, rodas de conversas, salas de aulas, o texto faz a crítica e desnuda a estrutura burocrática do Estado, que sem políticas definidas, não consegue traduzir em ações as manifestações espontâneas das culturas populares, as quais, criminaliza, e exclui.
O SARAU MULTICULTURAL DO MERCADO é uma cena que existe há cerca de cinco anos, diante do Mercado de São Brás, espaço de ação também da cultura hip hop, capoeira, e skates, e dançarinos de rua, e que por isso mesmo, tem sido solenemente vigiado(s) pelo Poder Público.
Além de não dialogar com os diversos segmentos, e ignorar as propostas dos artistas e fazedores de cultura popular, a gestão do prefeito Zenaldo Coutinho e ainda tenta por fim à Lei Valmir Bispo dos Santos, que incluiu Belém no Sistema Nacional de Cultura.
Após leitura do texto , o diretor-editor da #TRIBUNADOSALGADO, Francisco Weyl, declarou que comunga do pensamento do poeta Jorge André Silva, que nos representa nesta forma de resistência, em nome de uma arte que se confunde com a própria vida.


                                               Fonte © #TRIBUNADOSALGADO

Leia CARTA de Jorge André Silva

17 de fevereiro às 15:31

Não rolou o Sarau ontem, dia 16/02.

Não por causa da chuva (que nunca impediu de nos reunirmos, sendo inclusive, um dos mais bonitos eventos aquele em homenagens às mulheres debaixo de chuva bela e caudalosa).
Também não foi culpa dos artistas ou qualquer ausência. Foi uma presença que ninguém convidou e que tantas e tantos convidam a se retirar o que impediu o Sarau Multicultural. Foi a presença da ignorância, da burocracia, da inação e do descaso.

A Guarda Municipal, em conjunto a uma equipe do DETRAN, comunicaram o encerramento enquanto arrumávamos tudo.

Nenhum ato de agressão ou intimidação física, pelo contrário. Nenhum desrespeito pessoal. Apenas a confirmação de que em Belém cultura popular, uso do espaço público e resistência cultural são obstáculos à visão de mundo que impera e comanda nossa cidade.

Mesmo não havendo música, poesia, alegria, houve uma interação importante: Uma conversa muito direta com a Guarda.

Os Guardas Municipais, assim como todo o funcionalismo público municipal e estadual, são os primeiros a serem alvo da forma de conduzir a sociedade para a segregação e cerceamento de direitos sociais que existe na base ideológica dos nossos atuais governantes.

Sem atrito, falei sobre a inexistência de ações pro-ativas de incremento, fomento, incentivo e apoio a artistas e a nossa cultura.

Falei sobre como essas ausências fazem com que as várias gerações que coexistem neste momento histórico sejam alijadas do conhecimento, da experiência, da vivência e crescimento que a cultura, bem como o esporte e o lazer, proporcionam quando ocorrem em conjunto e de forma organizada.

Citei por exemplo que aquele mesmo evento que estava sendo impedido era um momento de confraternização, de exposição de trabalhos e expressões mesmo sendo sub utilizado socialmente, pois a praça e o Mercado estavam abandonados, quando poderiam ser gerados de centenas de empregos, trabalho, renda, oportunidades, aprendizados.

Tratar a cultura como um vetor social, econômico e educacional, não é apadrinhar artistas em panelinhas. Pelo contrário.

Não há um projeto de sociedade que INCLUA a expressividade, a pluralidade, a diversidade em nossa cidade. A juventude é a primeira a sofrer as consequências disso. Inexistem ações que construam coletivamente uma visão de mundo sem violência, sem egoísmo, focada no bem estar e na fruição estética.

Não cabe apenas às famílias fazerem isso e, ao contrário do que ouvi de um dos Guardas, não podemos ficar a mercê de escolhas pessoais como no relato que ele me fez, no qual contou ser filho de família pobre, mas se esforçou e venceu, chegando a boa patente na Guarda Municipal. Respondi que SOCIALMENTE NÃO PODEMOS FICAR INERTES ESPERANDO O JOGO DE DADOS DA INDIVIDUALIDADE, devemos agir para oferecer especialmente aos mais jovens a chance de fazerem escolhas com o mais amplo leque de possibilidades experimentadas e não apenas ansiadas como inatingíveis (como é a arte hoje para a maioria dos jovens da periferia).

A sociedade deve construir coletivamente a visão de mundo, o modo de viver a cidade e a maneira de gerir a coisa pública. Não podemos deixar toda a população abandonada como está, tendo acesso à cultura exclusivamente através do dinheiro (ou da TV) e não da vivência cotidiana. Essa alienação do direito à cultura abre espaço para que discursos como o da violência, do individualismo, do egoísmo, se tornem o vozes hegemônicas e isso tem como consequência a atual situação de desesperança.

O Sarau Multicultural vai resistir. É pra isso que ele existe. Para isso foi criado e permanece acontecendo, ecoando. O Sarau continuará vindo-convidando-interferindo-multiplicando.

Vamos precisar de apoio para papeladas, taxas, burrocracias e precisaremos resistir em campos em que a arte é tratada como irrelevante. O coletão terá de haver antes e durante os eventos. Temos uma multa de trânsito de 300,00 a pagar e documentos a tirar.

Mas sabe de uma coisa:
AS NOITES ESCURAS EM QUE BELÉM TEM SIDO MERGULHADA UM DIA VOLTARÃO A SER REPLETAS DE ESTRELAS-SORRISOS.

O Sarau Multicultural agradece e seguirá.
VENHA.CONVIDE.INTERFIRA.MULTIPLIQUE.

Vens?
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