#PARFOR2017 “O Diário de Campo da pesquisa em Artes em Barcarena” (Por Francisco Weyl)


Sempre que nos propomos em fazer alguma coisa, o que quer que seja, empenhamo-nos em construir conhecimentos, partilhando-os, apreendendo-os, questionando-os.
Eu gosto de exercer a função social de um professor e/ou pesquisador, sim, é sob esta condição que me coloco com um amor simultaneamente materno e paterno.
E do mesmo modo gosto de atuar como jornalista, como cineclubista, como realizador de cinema, produtor, agitador político e cultural, encantador, mambembe.
Portanto, está a ser maravilhosa vir a Barcarena e ser batizado no Parfor/UFPa, apesar de já estar a começar a perder a paciência com o Município, com alguns de seus passantes, e até moradores.
Objetivamente, Barcarena sofre esta colonização desenfreada na Amazônia que desconhece as localidades e desrespeita os conhecimentos das comunidades.
O projeto de “desenvolvimento” econômico anunciado pelo Estado brasileiro, com a Albrás-Alunorte, constitui-se em uma falácia.
Barcarena-sede se tornou uma cidade quase-dormitório, sem estruturas básicas, e os poucos serviços, disponibilizados ao atendimento das necessidades dos “investidores” no Polo Industrial.
A violência grassa, o medo à noite é visível, o Município mais se parece uma cidade fantasma, com casas cheias de grades de luzes apagadas, e quase nenhuma alma nas ruas.
E é aqui neste cenário que eu vim parar, hospedando-me em um hotel, que não oferece serviço de café da manhã e nem água par consumo tem para os seus clientes.
As aulas ocorrem entre oito horas e doze horas, com uma hora de intervalo, retornando-se entre as quatorze horas e as dezessete horas.
Sem tomar café, esforcei-me por conseguir um lugar para comer rapidamente na Vila, ficando limitado as opções de churrascaria. Ou feira. Preferi a feira.
Á noite na sede não é diferente, com pouquíssimas opções para uma boa alimentação, churrasco e/ou sandwiche, quando muito sushi.
Eu próprio fui enganado no restaurante Copacabana que me vendeu uma refeição de filé mas me serviu um prato feito com a carne picotadinha.
Detalhe que nem a picanha e nem o filé de frango teriam vindo picotadinhos, disse-me a nada simpática atendente que não podia fazer nada, sequer me ouvir. 
Eu nem queria reclamar mas fiz-lhe entender que à sua frente estava um cliente que se sentia enganado e que por isso mesmo eu atirei fora á comida, pagando-a, claro.
O espaço estava vazio sob a chuva, a música alta desnecessariamente, e o chopp sem estar gelado e com um gosto acre.
Confesso que me chateei em Barcarena para comer, diversas vezes, tendo de lidar com pessoas que atuam com o público, mas que são visivelmente mal humoradas.
Mas até que eu encontrei a Dona Fátima, uma japa que faz sushi caseiro, espetáculo, recomendo, mas ela achou que eu tinha pedido cinco camarões empanados.
Não os pedi, claro, ela deve ter se confundido, mas também  se mostrou chateada, por ter de volta com quatro camarões e mesmo recebendo uma boa grana pelo que eu comi, enfim.
Eu cresci em uma casa onde nãos e reclama da comida que se come, se não gosta, pede licença e levanta da mesa.
Só se pode energizar de forma positiva o alimento que se come e pelo qual se deve agradecer, por saciar a nossa fome.
E também a todos aqueles, cujo o trabalho foi definitivo para que aquele alimento estivesse em nossa mesa, desde quem os plantou, quem os colheu, quem os colocou na feira ou no mercado, quem os comprou, quem os preparou.
Não gosto de me chatear quando eu como, até porque nem me sinto uma pessoa faminta, sei fazer jejum e esperar minha hora de comer, jamais me sirvo primeiro.
Além do mais, não vim a Barcarena para alimentar o meu corpo mas sim ao meu espírito, entretanto, o deslocamento, as chuvas, as condições me fizeram adoecer.
Contrai uma virose, também motivada pelo espaço da sala de aula, que tem prejudicado diversos estudantes, com os mesmos sintomas e até tendo de ir a emergência.
Sim, ainda não falei da UAB, que é onde ocorrem as aulas do curso de Artes Visuais do Parfor-Barcarena, no complexo administrativo da Sub- prefeitura Municipal, Pa-481, Vila de São Francisco, uns 20 minutos do hotel.
Meu amigo José Maria me ofereceu hospedagem em casa de família, agradeci-lhe, mas optei por este hotel, na sede, tenho hábitos noturnos e não queria incomodar.
Paguei R$ 500 reais para deixar minhas coisas, porque praticamente eu apenas aqui dormia, para cumprir este turno intenso de trabalho e no qual você tem de dar conta minimamente de um programa pedagógico.
Sob a coordenação da gentil e esforçada professora Izabel Meneses,  o Parfor tem uma turma de 28 mulheres, maduras, a maioria das quais professoras públicas, algumas com outro curso superior.
É á última turma do Parfor em Bracarena, porque a UFPa decidiu não mais promover nenhum curso enquanto a prefeitura anão doar o terreno para a Instituição.
Nesta guerrinha de egos entre gestores institucionais, sobra para os estudantes deste Município, que ficaram prejudicadas com a retirada da oferta de ensino superior nesta modalidade.
Alguma alunas me narraram as suas diversas dificuldades, que elas enfrentam , para se deslocar, desde as suas casas, até São Francisco, um lugar que até se tornou perigoso, com a ocorrência de assaltos.
Além desta insegurança que afeta a todos psicologicamente, a ausência de estruturas denota o completo abandono do Polo-UFPa em Barccarena.
O mato cresce a volta das salas, e não há estruturas mínimas para o desenvolvimento das atividades práticas ema artes visuais, diferente de quando os cursos começaram a ser disponibilizados.
As estudantes tem de mostrar uma força de vontade absoluta para continuar seus estudos, razão pela qual, das 35 inscritas, sete deixaram de cursar o Parfor.
As que continuam, muitas delas são professoras do ensino infantil, particular e público, algumas concursadas, vinculadas as escolas, e outras, contratadas, e outras, desempregadas.
Estas estudantes-professoras, algumas delas, têm experiência em sala de aula há mais de dez anos, enquanto que outras começaram por assim dizer ontem, e ainda outras começaram como profissional de apoio e se tornaram professoras.
Há estudantes-professoras que não tem autorização de suas escolas para se afastar do trabalho para fazer o curso do Parfor, razão pela qual assistem as aulas em apenas um turno, o que lhes prejudica a adaptação aos processos pedagógicos.
Antes de cursar Artes Visuais, algumas destas professoras trabalhavam com o ensino de artes para crianças sem métodos e critérios, e até sem conexão com a realidade local.
É por esta razão que cursar o Parfor e participar das dinâmicas pedagógicas do curso as tocaram de tal forma que elas produziram mudanças de paradigmas em suas salas de aula e também nas diversas  comunidades em que habitam e produzem.
Elas sentiram na pele as diversas dificuldades para lidar, por exemplo, com crianças especiais e com algum tipo de deficiência visual, auditiva, múltiplas, síndrome de dow, etc.
Elas próprias tiveram e tem de se reinventar e de se reciclar em libras, braille, e outros métodos e processos que permitam incluir estas crianças especiais.
São, pois, professoras, diretamente conectadas com as suas realidades e as problemáticas dos seus alunos, e de seus familiares, e comunidades, nas quais desenvolvem percepções, a partir destas vivências muitas vezes contraditórias mas para elas gratificante, ainda que muitas vezes angustiante.
Além deste abandono do Parfor em Barcarena e dos problemas técnicos e administrativos, elas convivem coma s dificuldades de mobilidades urbanas, nos seus deslocamentos, já que utilizam vários meios de transportes, desde mototaxi, ônibus, e lancha.
Elas sabem que há uma visão deturpada das professoras de arte, ainda mais agora nestes tempos de mudanças de projetos políticos, educacionais e pedagógicos, que retirou a obrigatoriedade do ensino de arte nas escolas.
Uma das cosias que mais as incomoda é que professoras e professores de arte, de acordo com esta visão deturpada, servem apenas para enfeitar as escolas, e nos projetos interdisciplinares, artístico é a simples pintura de um quadradinho.
Estas questões foram inventariadas nas aulas da disciplina Metodologia da Pesquisa em Artes, que eu vim ministrar, para contribuir com a construção de seus projetos de pesquisa.
A maioria das estudantes-professoras não tinha objeto de pesquisa definido, e as poucas que tinham algumas pistas, ainda nem sabiam quais  procedimentos metodológicos utilizariam para dar conta de suas pesquisas.
Apesar de suas dificuldades e contradições, elas entraram na disciplina de forma motivada e motivadora, mas o desafio do professor haveria de ser hercúleo.
Como despertar a percepção científica das estudantes-professoras em arte e ciência, considerando que muitas delas ainda se postulam no universo do senso comum, colocando-se elas próprias sob o paradigma do conhecimento?
Isso em uma semana, intensiva, utilizando-se do rigor paradigmático do método científico ao mesmo tempo balizando com sensibilidade e coragem cosmológica a produção do conhecimento.
Não seria simples traficar pela via das estudantes-professoras, as experiências individuais de cada uma delas, e ao mesmo tempo coletivas, delimitando o que as diferenciava ao mesmo tempo o que as tornava comuns em suas práticas.
Elas já se conheciam mas eu não as conhecia e nem teria demasiado tempo para aprofundar as nuances e delicadezas que só as vivências em sala de aula são capazes de espontaneamente brotar.
Era, pois, necessário, “correr” com as falas e as práticas, estimulando-as nas suas próprias potencias pessoais, fazendo com que cada uma delas se processasse enquanto processava também a gestação da natureza de seus objetos de pesquisa.
Em linhas gerais procurei obedecer ao planejamento das aulas programadas ao mesmo  tempo em que fiz valer o projeto pedagógico estipulado para esta disciplina pelo Parfor, qual seja o de estimular as estudantes-professoras a pensar os seus problemas e objetos de pesquisa.
Assim sendo, procurei estabelecer formas de sensibilização via exercícios criativos com a produção da escrita e da percepção, além de leituras dialógicas textuais, rodas de conversas, e mini-projetos conceituais em fotografia (Trilogia do Olhar).
Entre estes, a Pirâmide Metodológica, a Imagem-Força, e o Espinhaço de Peixe, que foram exercícios experimentais nas aulas do Mestrado em Artes, com os professores Lia Braga, Orlando Maneschy, Miguel SantaBrígida, e Wlad Lima.
Além disso, recorri às digressões dos – à altura – mestrandos em Artes do ICA-UFPa, estimulados pelo então professor Luizan Pinheiro, que nos desafio a produzir textos sobre a função social da pesquisa em artes.
Os textos foram “A pesquisa e sua função social” (Jeová de Jesus Couto); “Para que serve a pesquisa em artes” (Raymundo Firmino de Oliveira Neto); “A função social da pesquisa em arte na Amazônia brasileira” (Bruna Suelen); “Cios, cicíos, e cerceios - os descaminhos da aquisição e produção de conhecimento (Cilene Nabiça); “Liberdade de enfrentamento - ou O verbo tem que pegar delírio ( Raphaella Marques de Oliveira), e um texto de minha autoria (“Há arte na Academia”?).
Além destes textos, as estudantes-professoras também dialogaram e fizeram resumos-comentados e seminários sobre as reflexões de Sandra Rey no texto “Por uma abordagem metodológica da pesquisa em artes”.
No primeiro dia de aula eu solicitei as estudantes-professoras que escrevessem uma única palavra que fosse tradutora das expectativas delas com relação a disciplina.
A este exercício, chamei de a árvore dos desejos, guardei os papeis em que elas escreveram estas palavras e no último dia de aula montei a árvore, mostrando que alguns destes frutos maturaram, alguns apodreceram e outros, transformaram, transformando.
Esta prática é uma forma de avaliar os percursos da disciplina e dos próprios alunos, que participam da montagem da árvore, ao mesmo tempo em que esclarecem se as suas expectativas foram ou não respondidas.
Em vida e em arte há um processo de suspensão, e uma dinâmica transcendental, que se instaura nos fenômenos, muitos dos quais invisíveis, mas reais, e que interferem nas relações entre professor(a)-aluno(a) em sala de aula.
Interessa-me a mim, enquanto professor, pesquisador, e artista, muito mais esta imprevisibilidade, esta surpresa que o tempo pode nos proporcionar, o acaso e o aleatório, que independente do planejado.
É este o lugar ou o não-lugar do processo de ensino da disciplina de Metodologia de Pesquisa em Artes, que ministrei no Parfor, em Barcarena, em 2017.

© Carpinteiro de Poesia Francisco Weyl
(Mestre em Artes / Especialista em Semiótica / Bacharel em Cinema)




Montagem das IMAGENS-FORÇA das pesquisas das professoras-estudantes do curso de Artes Visuais do Parfor em Barcarena.

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