#CRÍTICA “O Coletivo se auto-estrutura e se auto-regula no próprio Caos” © Carpinteiro de Poesia




Apenas as ações apaixonadas prevalecem no Coletivo.
O Coletivo não é um partido, não tem generais, e nem soldados.
O Coletivo não é uma família moral que se deva proteger de forma institucional.
O Coletivo pode se auto-destruir mas não pode perseguir os seus indivíduos, aqui entendidos como todos aqueles que fazem parte do Coletivo, porque é para estes indivíduos que o Coletivo existe.
O Coletivo é formado de indivíduos, logo, o Coletivo tem carne e sangue.
O Coletivo é formado de indivíduos cujo individualismo é colocado ao serviço do Coletivo, mas o Coletivo não é democrático nem justo.
Todos são responsáveis pelas suas ações, as quais devem ser realizadas, se desejadas.
Ele é a medida certa de uma luta pelo Poder.
No interior do Coletivo, as forças visceralmente catastróficas devem ser assumidas, logo, o Coletivo não é falso consigo próprio.
Estas forças catastróficas são o limite do Coletivo, que tanto pode se auto-destruir quanto surgir a qualquer momento e em qualquer lugar.
Este estado de suspensão e de nomadismo, caracterizam o Coletivo, que é heterogêneo, não híbrido.
O Coletivo tem objetivos claros e surge em função destes objectivos, os quais, não encaminhados, concorrem para que o Coletivo se dissolva.
Os objetivos do Coletivo são os objetivos dos indivíduos.
O Coletivo defende que os indivíduos exerçam o direito de falar e fazer o que quer que seja e sobre quem quer que seja, seja ele o falante ou o falado, ativos ou passivos no Coletivo.
O Coletivo não se importa com o que falam ou fazem, não interessa ao Coletivo a personalidade dos indivíduos, interessa ao Coletivo as ações coletivas do Coletivo.
Interessa ao Coletivo que o indivíduo se dedique às ações históricas que são desencadeadas de forma artística através do Coletivo.
Interessa ao Coletivo não o que faz o indivíduo mas sim o que este indivíduo faz para que o Coletivo sobreviva.
Os indivíduos não precisam se conhecer para participar de um Coletivo, basta que se identifiquem com as ideias e praxis do Coletivo.
O Coletivo, para que ele exista, carece do sacrifício dos indivíduos.
São estes sacrifícios que fundam a ideia do Coletivo.
O Coletivo depende, logo, defende o indivíduo, logo, o Coletivo vem a ser, muitas vezes, mais egoísta que o próprio indivíduo, porque, em síntese, o Coletivo tanto exige sacrifícios quanto dilacera o indivíduo, como se este nada representasse, independentemente de suas ações (coletivas) anônimas que sustentam o Coletivo.
Mas, no geral, todo Coletivo é contraditório.
A ideia de Coletivo remonta às sociedades pré-históricas, quando os seres humanos organizavam-se socialmente em tribos e clãs, em nome dos quais praticavam a eterna arte da guerra, motor do desenvolvimento humano.
Já na raiz de uma sociedade objetivamente estruturada em hierarquias e relações políticas e religiosas, podemos localizar o Coletivo, mas a ideia de Coletivo, entretanto, atravessa as organizações que se institucionalizaram.
A ideia de Coletivo também cresceu com a filosofia comunista, no que ela tem de comum ao cristianismo primitivo.
Entretanto, os ideais de igualdade são relativizados na medida em que são individuais os valores dos quais são construídos os coletivos, o que, necessariamente, torna todos os Coletivos em praxis contraditórias.
Portanto, o conceito ou a ideia de igualdade está directamente articulada a possibilidade que todos têm (se assim o desejarem) de participar do Coletivo (em condições iguais).
Entretanto, o antagônico possível, isto é, a impossibilidade ou o não-desejo ou um desejo reactivo à participação também torna livre o indivíduo, pois que nenhum ser humano é obrigado a absolutamente nada, faz o que quer, como, onde e porque quer.
Não é esse o espírito de um Coletivo, obrigar um indivíduo a participar ou a obedecer regras durante a sua participação no Coletivo.
Por isso o Coletivo é anárquico.
Todos são iguais, podem tudo, até mesmo destruir o Coletivo, porque o Coletivo não é uma Instituição, não é este o seu papel.
Sua ação é efêmera, entrelaçada, tal qual um vírus.
O Coletivo não tem diagnóstico nem pode ser catalogado.
Ele é inteligente, mutável, ora aqui e já ali, e já ali a seguir ou antes, em qualquer lugar.
É o princípio surreal da aleatoriedade, esta fractalidade virótica.
O Coletivo se auto-estrutura e se auto-regula no próprio Caos.
Ordena-se por assim dizer no interior de um choque entre as forças individuais que o compõem e o sustentam.
E estas forças estão em luta contínua, pela sua afirmação e/ou destruição.
Uma luta darwiniana, interior, pela sobrevivência, pelo Poder e pelo fortalecimento de um sentido Coletivo de sobrevivência deste Poder.
Este Poder migra, desloca-se, como vírus, oculta-se, disfarça-se, para atacar em zonas desconhecidas, ainda protegidas pelos códigos de segurança do Sistema Global.
Um vírus que escapa para danificar o Sistema, um vírus que desestabiliza os códigos artísticos, um vírus que intervém na cidade para destruir o Sistema tal qual este Sistema se nos é imposto.
O Coletivo é livre para pensar e agir.
Enquanto os indivíduos refletem, escrevem e/ou falam, o Coletivo formula o seu Imaginário.
Enquanto os indivíduos sonham, o Coletivo constrói o seu Arquétipo.
O Arquétipo do Coletivo nasce destes sonhos.

Texto: Francisco Weyl  
 
                                                 Fonte © @TRIBUNADOSALGADO

                                                      
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