#ÁFRICA “O cinema e a cultura negra por Carlos Sá Nogueira Borges”

O jornalista e mestre em Ciências da Comunicação – Especialidade em Informação e Jornalismo,  e cidadão africano de Cabo Verde, Carlos Alberto Sá Nogueira Borges, 50 anos, participou ano passado da II edição do FICCA, na condição de jurado, tendo se deslocado com apoio do Governo de seu país, que mais uma vez, através do Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas, irá nos proporcionar a sua visita a Bragança para participar do festival e dos intercâmbios com as expressões de linguagens artísticas que envolvem o certame.
Carlos concedeu entrevista exclusiva ao jornalista Francisco Weyl, editor/diretor do Jornal TRIBUNA DO SALGADO, na qual falou sobre o cinema africano, particularmente o de Cabo Verde, que aliás este ano é homenageado pelo festival, e também sobre a sua  experiência de participação no FICCA
1.    Qual a relevância do III FICCA homenagear o cinema africano, particularmente o produzido em Cabo Verde, nesse caso, pela via do realizador Júlio Silvão?
A feliz ideia de a 3ª Edição do FICCA homenagear o cinema africano está a dar um sinal claro, da importância do cinema na formação e preservação  da identidade cultural do continente negro.  Como diria o sociólogo gaúcho Pdrinho Guareschi, a cultura é alma de um povo. «É aquilo que anima uma nação. Dá sentido a vida de um povo. Um povo sem cultura é um povo alienado, dominado e morto». Pois, diríamos nós, que um povo sem identidade baseada na sua história não desenvolve, não tem raízes, não tem argumentação, não tem alma e é facilmente dominado por outro povo. O cinema tem o condão de contar a história de um povo e de preservá-la para as gerações futuras.
Portanto, a cultura cabo-verdiana está de parabéns e o meu amigo e conterrâneo Júlio Silvão está, com certeza, feliz pelo facto de os seus filmes terem sido escolhidos para simbolizar esta homenagem. É caso para dizer, parafraseando Pessoa, que Deus quer, o homem sonhou e a obra nasceu. É esta obra de Júlio Silvão que vai, durante o III FICCA , ser o rosto desta homenagem ao cinema africano.
2.    Fale-nos um pouco das estruturas ou da ausência destas, à produção, e à realização do cinema em África e Cabo Verde em linhas gerais, dos festivais, e de outras experiências criativas audiovisuais que lhe têm despertado atenção.
A África, como disse há um pouco é um continente fértil, em matéria de conteúdo cinematográfico. Agora é preciso explorá-lo. É preciso, por exemplo, que os governos tenham mais sensibilidades para a produção cinematográfica.
Recentemente estive em Abuja, Nigéria, e pude, em conversa com os meus colegas jornalistas, informar-me sobre a indústria cinematográfica naquele país de sudoeste africano. Fiquei estupefacto quando disseram-me que o cinema da Nigéria tem crescido nos últimos anos e, embora seja um mercado extremamente informal. Que teve uma grande explosão a nível  de produção nos últimos anos e que tem chamado a atenção mundial pelas suas características únicas.
Todas as produções são realizadas em vídeo. A sua produção é duma dimensão tal que já lhe rendeu o apelido de "Nollywood", por ser considerada a terceira maior indústria de produção de cinema do mundo, atrás apenas de Hollywood e Bollywood.
A título de informação, em volume de produção, "Nollywood" talvez seja até a maior, já que desde o final da década de 1990 são feitos mais de mil filmes por ano.
Relativamente a Cabo Verde, a produção está a ganhar algum espaço, sobretudo com a chamada democracia digital, em que qualquer pessoa com um Smartphone pode fazer um vídeo de 3 ou 4 minutos, sobre um acontecimento qualquer. O problema é que essas produções, que eu diria massificadas, precisam de uma orientação. Aqui, parabenizava, mais uma vez ao Silvão pelo brilhante trabalho de formação na área de produção e realização em cinema, em diferentes municípios do País.
Agora é preciso mais apoio. Sei que o novo Governo tem uma sensibilidade muito especial pelo cinema, tanto é que na orgânica do Ministério da Cultura, criou-se a Direcção-geral das Artes, onde o cinema tem um lugar de destaque. Tanto quanto sei, neste momento está-se a socializar a Lei-quadro do Cinema em Cabo Verde, o que é, para mim, um passo gigante deste novo Governo. 
Neste momento existem já alguns festivais de cinema em Cabo Verde, como são o da ilha Sal, de São Vicente e o da Praia, em Santiago, que este ano vai na sua terceira edição.
3.    E particularmente, como é que o Sr. observa a cena do cinema hoje em Cabo Verde, dentro desta viragem de gestão no âmbito Institucional, com a vitória política do MpD?
Como disse, há pouco, o Governo saído das eleições de 4 de Setembro, tem mais sensibilidade para o cinema, enquanto ferramenta de comunicação e preservação de valores identitários do povo cabo-verdiano.
A aposta na institucionalização do cinema em Cabo Verde, através de uma estrutura do Governo que lida com o sector cinematográfico pode representar, uma grande oportunidade que se abre para aqueles que olham para o cinema como meio para ganhar dinheiro, mas também para a promoção e divulgação da cultura cabo-verdiana. Sobretudo, quando pensamos no turismo, como a nossa galinha de ovos de ouro.
4.    O que sentiu de Bragança, quero dizer, o que ficou do Senhor aqui desde o segundo FICCA, e o que o Sr. levou na bagagem de volta a Cabo Verde, que muito simbolizou a nossa terra?
A minha participação no II FICCA, em Dezembro do ano passado marcou bastante. Para já foi uma experiência inesquecível, na medida em que foram momentos de muita aprendizagem e de entrosamento com nomes sonantes do mundo do cinema brasileiro, como o cineasta e professor universitário, Sérgio Santeiro com quem fiz muitas amizades e aprendi muito sobre o cinema.
Para Cabo Verde levei sobretudo, a amabilidade, o carinho e a simpatia do povo bragantino. Foi extraordinária a forma como vocês acolheram-me em terras bragantinas, aquando da minha estadia para participar do II FICCA. Não tenho palavras para agradecer-vos, sobretudo ao meu irmão Francisco Weyl, um verdadeiro homem da causa cinematográfica bragantina e, naturalmente, brasileira.  
5.    E quais as expectativas estéticas para o III FICCA, diante dos filmes que o Senhor já viu, e que ainda estará por ver?
O que mais me impressionou, durante II FICCA foi, justamente, a narrativa dos filmes brasileiros, que pude ver. O Brasil, de facto, tem excelentes cineastas, não fosse um país de forte tradição cultural na produção cinematográfica.
Para o III FICCA as expectativas são boas e confesso que ainda não vi os filmes. Mas estou convencido, que a qualidade da narrativa fílmica será, seguramente, melhor, a avaliar pelos nomes de realizadores e produtores dos filmes que estar neste festival.
   6.    Há alguma questão que eu não lhe perguntei e que o Senhor desejaria responder?
Só queria mais uma vez, felicitar a organização do FICCA pela iniciativa e pelo espirito de entrega pela causa da comunicação através da arte do cinema. Dizia eu, no inicio desta entrevista que uma das melhores formas para divulgar a identidade cultural de um povo são, seguramente, o cinema.
Portanto, o FICCA é uma iniciativa que deve continuar. Sobretudo, por ser uma montra onde os cineastas e os amantes da sétima arte se cruzam numa linguagem que lhes é comum e que lhes une, através desta que, seguramente, uma das artes mais importantes da humanidade.

                        Fonte © #TRIBUNADOSALGADO / Foto #DRI Trindade
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