#Onecrófago > Crônica do IMORTAL Evandro Mesquita




Me ajudem aí!
Estou envergonhado.
Hoje acordei,  e, cedinho, deparei-me com uns urubus devorando um gato na sarjeta.
Olhei aquela cena com uma sensação nauseabunda.
Pois bem: resolvi montar um sanduba de presunto; primeira refeição matinal.
No primeiro naco que engoli, lembrei a cena do urubu comendo o gato.
Fiquei pensativo antes de continuar devorando o sanduíche.
Ingeri um gole de suco.
Peguei outra fatia de presunto, dentre os dedos e, cá com meus botões, pensativo, logo exclamei: meu Deus!
Eu sou um necrófago!
Como carne morta todos os dias.
 A diferença para o urubu é somente o tempero e/ou cozimento.
Nós somos necrófagos. Que vergonha!
Mas, por outro lado, não temos presas e maxilares possantes para comer carne viva.
Outrossim, não somos Zumbis, nem predadores assassinos.
Mas temos o estigma de necrófagos.
Comemos defunto.
Pense nisso quando você estiver saboreando um churrasco.
Será que não podemos viver sem as proteínas da carne?
Maldita sina que o ser humano herdou.
Necrófagos , devoradores ,predadores da natureza animal.
Bem: já que estou atraído pelo odor desta fatia de presunto, que se dane !
Engulo esse naco de carne morta com imensa satisfação.
Afinal, estou deglutindo presunto com a sugestiva marca da Sadia, o que me faz ignorar que sou necrófago.
Literalmente, se preciso for prá, eventualmente, num apocalipse, tentar sobreviver, sou capaz de comer você , sem tempero.
Me perdoe.
Seria inevitável.
Afinal, sou necrófago.
Também tenho medo de você.


  Evandro Mesquita é poeta e músico, e Imortal à Academia de Letras do Brasil – Seccional Bragança
                                                        
                                                       Foto © #DRITRINDADE

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