‪#‎OPINIÃO‬ > “O ataque do governo à cultura paraense” >


A começar pelo corte generalizado de recursos federais que afetou os diversos setores, estes dias não têm sido nada bons para a cultura. Esta falta de financiamento permanente desenvolveu no setor uma categoria de artista que vende para além de sua obra, a sua própria alma, ao diabo, ao estado, e aos empresários, necessariamente, ao próprio sistema, contra o qual muitas vezes esbraveja, mas ao serviço do qual sempre se coloca, desde que com os cachês pagos, preferencialmente, em dia, embora, os atrasos também tenham sido respeitados, mesmo com os baixos valores repassados.
Nacionalmente, continuamos a assistir a concentração de recursos na avenida Paulista e apoios a filmes estrangeiros e a circulação de atrações globais. Afora isso, apenas uma velha política burocrática de editais, não replicada no Pará, que não adere ao Sistema Nacional de Culltura, exemplo seguido por todas as prefeituras paraenses. Resultado disso é que dinheiro de cultura é apenas para amigos, um balcão de negócios.
Enquanto Leis e Editais engessam produções independentes, paralelamente, seguem abertas as torneiras para projetos destinados ao mercado, do que tem se aproveitado até mesmo os ditos artistas que fazem e se aproveitam de práticas e falas comunitárias, sem a estas se dedicarem ou sequer construírem vínculos humanos. É o caso do Fora do Eixo, uma organização claramente capitalista que atua dentro do Ministério da Cultura, filtrando projetos e fazendo a ponte entre fontes financiadoras e bases setoriais locais, articuladas às “políticas” regionais e estaduais, supostamente combatidas mas sempre bem vindas, quando ardilosamente articuladas.
Assim sendo, o sistema “S” (SESC/SENAI/SESI/SEBRAE) ainda financia em nome do Estado algumas ações dirigidas e muitas vezes excludentes porque centralizadas nos espaços institucionais e apenas acolhendo projetos que a se submetem a estas mesmas instituições, entretanto, na contramão desta história, todas as formas de arte respiram e transgridem nas periferias em forma de poesia, grafites e outras ações culturais espontâneas ou organizadas coletivamente, mas completamente desgarradas dos interesses da mídia, antes pelo contrário interessadas nas relações afetivas entre as pessoas que aderem a estes pequenos projetos invisíveis.
Há um forte desprezo da elite contra a cultura paraense e isso se evidencia em pleno Ver-o-Peso, por muitos considerado o cartão postal da cidade, mas uma observada mais detalhada poderá indicar as fissuras entre territórios em disputa, no caso a Estação das Docas e o próprio “Veropa”, sem falar nos interesses empresariais que não demoram vão estimular a limpeza étnica do centro.
Ouvi dizer que o “Pavulagem” está rodando chapéu pra fazer o seu cortejo tradicional, outro dia foi o Teatro Cuíra que fechou as portas, mas antes (sobre)viveu a um processo de resistência cultural numa zona central bastante estigmatizada pela prostituição e drogas, no coração de Belém, na Riachuelo com a Primeiro de Março, algumas quadras acima da sede do “Pavulagem”, cujo prédio histórico lhes foi facilitado pelo Estado, e que muitas vezes recebeu recursos públicos para avançar nos seus projetos, mas que, entretanto, agora, por assim dizer, está de pires nas mãos.
E esta área central, aliás, tem muita história de resistência cultural, desde os antigos trabalhadores e frenquentadores do porto, lutadores de capoeira cantados pela poesia de Bruno de Menezes, e as prostitutas, que acabaram de promover o “Puta Day” na encruzilhada da General Gurjão com a Frutuoso Guimarães, mas, apesar disso, nem mesmo projetos como o Cirular-Campina que reúne produtores culturais diversos conseguiram manter o “Cuíra” vivo.
O “Cuíra” é uma experiência de coragem de atores culturais sem apoio direto do poder público, enquanto que as instituições financiadas com dinheiro público, entre as quais as secretarias estaduais e municipais de cultura, têm ignorado as práticas dos artistas da terra, assim como destruído criminosamente o próprio Patrimônio Público para privatizá-lo, como fez com a estação das Docas e agora tenta fazer com o Solar da Beira (Ver-o-Peso), ocupado que foi pelos artistas, perseguidos pelas secretarias e pela polícia por terem conseguido provar que quem está a destruir a cidade é o próprio Poder Público e que a arte deve ir aonde o povo está.
A ocupação do Solar, que começou com a autorização do próprio poder público e durou cerca de dois meses, ainda está por ser interpretada. Para além de sentimentos urbanos que vão da curiosidade a indiferença, do apoio e da solidariedade à ignorância e ao desprezo, esta ação gerou também crises no interior dos próprios atores culturais, que historicamente sempre tiveram dificuldades em se agregar, por excesso de ego e de ambição pessoal.
O silêncio de uma ação tem mais sentido do que a ação em si mesma. E foi pelo convencimento a partir de uma vivência prática que os artistas residentes (e resistentes) do Solar conquistaram a solidariedade e construíram a cena em rede. Resultado disso é que a prefeitura de Belém vai ter de explicar ao Ministério Público porque tanto vandalismo institucional contra um literalmente “tombado” patrimônio público. Ficaremos na torcida que esta onda cresça, já que ele vem de muitos anos e é levada avante por muitos militantes que tem se posicionado firmemente em defesa da Cidade Velha ou da Biblioteca Pública Municipal Avertano Rocha, em Icoaraci.
É por estas e outras razões que nós somos críticos da elitizada política cultural que caracteriza este nenhum pouco transparente governo estadual. A própria (XIX) Feira Pan-Amazônica do Livro é exemplo disso, organizada que foi sem o reconhecimento ao escritor paraense e sem dialogar com nenhuma entidade que atue nos campos culturais que envolvem a produção intelectual e corporal do livro, industrial ou artesanal.
Sem dúvida a Feira é uma centralizada “oferta” de um bem e serviço para além de tudo social, com fins de mercado, sem que, entretanto, os seus custos tenham sido anunciados. Mas já se ouve críticas à baixa qualidade e mesmo à quantidade de obras disponibilizadas pelo evento. E isso reflete o centralizado mercado editorial brasileiro. Uma pesquisa do Painel das Vendas de Livros do Brasil revelou que os 500 livros mais vendidos correspondem a 25% do total das vendas, num total de 150 mil títulos comercializados nos três primeiros meses deste ano.
Compreendemos que a função de uma feira é fundamentalmente de inclusão cultural, troca de conhecimentos, de produtos e de práticas colaborativas. Por isso nela iremos “garimpar” promoções e rescaldos de editoras nacionais, regionais e estaduais. E se possível dialogar com jovens escritores, inclusive estes que são independentes e lançam suas obras fora dos mercados, com financiamento próprio, auto-sustentáveis, artesanais, criativas e coletivas, como fan-zines e outras formas de expressar a arte literária para além da grana, mas com inteligência e espiritualidade.
Compreendemos que o Estado e seus gestores não fariam mais do que obrigação tornar política a inclusão pelo campo da cultura, respeitando-se as manifestações locais, acionando-se os seus organizadores, fazedores e criadores das comunidades para que estes digam o que querem e como querem e se autodeclarem competentes o suficiente também para gerir e fiscalizar as próprias ações desenvolvidas, neste caso, em coo-gestão com o Estado, os comerciantes e demais financiadores das práticas locais culturais. As cenas que acontecem nas periferias urbanas e rurais estimulam o surgimento de práticas inovadoras como a moeda social, a qual, pela via da economia solidária, reverte a lógica de mercado do capitalismo, e contribui na realização de experiências autossustentáveis, autofinanciáveis, e colaborativas.
Fonte © ‪#‎TRIBUNADOSALGADO‬
Texto : Francisco Weyl / Foto: Dri Trindade
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