‪#‎MINHACASAMINHAVIDA‬ > “Viúva de beneficiário denuncia negligência” >


Negligências, ameaças, fraudes e especulações imobiliárias podem estar por detrás da morte de um trabalhador rural aposentado em Bragança. A família acusa gestores e funcionários de instituições, além de pessoas articuladas a grupos políticos e empresariais locais como sendo os principais responsáveis por esta tragédia. O fato ocorreu no dia primeiro de junho. Mas foi praticamente abafado . Nesse dia, a vítima faria a vistoria da casa com a qual havia sido contemplada no programa Minha Casa Minha Vida.
E o programa, que teve até obras embargadas por denúncias ambientais, foi acusado de fraudulento por uma vereadora do mesmo grupo político do prefeito João Nelson Magalhães. As denúncias, entretanto, ainda não foram respondidas pela coordenadora local Jaqueline Araujo. E não se sabe se o Ministério Público ou a Promotoria tenham tomado alguma atitude no sentido de investigar os fatos.
O trabalhador rural aposentado José Ribamar Borges Ribeiro, 67 anos, foi vítima de um infarto agudo do miocárdio no dia primeiro de junho. Nesse dia, ele acordou, comprou pão, fez e tomou café. Apesar da rotina, aquele não era um dia comum. E mesmo com a saúde débil, (colesterol alto, pressão alta e diabetes), estava contente, e até cantava. Como precisava vistoriar a casa, pediu ao filho José Ribamar Borges Ribeiro Filho, 25 anos, que levasse a sua carteira de identidade e resolvesse este assunto.
O filho, que é especial, obedeceu ao pai, pegou a bicicleta e foi até o Conjunto João Mota II, mas lá não obteve a concordância das pessoas com as quais contatou, provavelmente funcionários do programa, da prefeitura e/ou da construtora Cirius, responsável pela obra localizada no bairro da Vila Sinhá. No local, dezenas de pessoas, entre idosos, adultos, mulheres e crianças, estavam enfileiradas, debaixo de um sol abrasador, sem as mínimas condições de estrutura para sentar, ir ao banheiro ou tomar água.
A coordenação do programa já havia sido criticada pela forma como procedera desde a afixação dos resultados dos contemplados, que se amontoaram na sede da prefeitura, e até mesmo nos procedimentos para as vistorias, nas quais os futuros proprietários foram orientados a se apresentar com roupas “elegantes”, sob pena de não terem direito ao acesso ao imóvel. Há informações de que dezenas de pessoas – a maioria das quais de origem humilde - tiveram de retornar às suas casas para colocar calças compridas e sapatos.
Com a negativa, portanto, Ribamar Filho voltou em casa para buscar o pai José Ribamar, transportando-o de bicicleta, por volta das nove horas da manhã. Quando chegou mais uma vez ao local da vistoria (as pessoas ficavam do lado de fora do conjunto), ele procurou avisar aos responsáveis pela organização da chegada de seu pai, cuja história já era do conhecimento de todos, e que, em tese, deveria ter atendimento prioritário, por ser um cidadão da terceira idade e que naquele momento não estava passando muito bem. Entretanto, Ribamar, o filho, foi orientado mais uma vez a aguardar a sua vez, do lado de fora, onde estavam dezenas de pessoas, todas debaixo do sol.
“O meu irmão (Ribamar Filho) que mora com papai veio aqui em casa nesse dia e eu orientei ele para levar a identidade do papai lá, mas quando chegou lá, o pessoal disse que tem que estar presente, mas o meu pai estava doente, então meu irmão foi buscar ele, pegou a bicicleta e levou meu pai lá, na garupa, e lá chegando, eles pediram pra esperar, meu irmão mostrou os documentos todinhos, e disse que meu pai não estava bem e eles pediram pra esperar”, afirma a filha (adotiva) Soraia de Nazaré Santos Borges, 30 anos, mãe de dois filhos.
Soraia e a mãe Anunciação de Maria, 57 anos (foto), afirmam que ninguém chamou o SAMU nem nenhum outro serviço médico. Nenhum atendimento veio da parte da organização da vistoria. Até que conseguiram um carro para transportar o aposentado. Ribamar ficou na fila desde as nove horas, sem comer e sem beber água, então, como estava passando mal, sentou-se do outro lado da rua, numa casa que tem uma fruteira no Conjunto Fênix, que fica bem em frente ao Conjunto João Moita II. De acordo com a viúva Anunciação, José Ribamar acenou para o filho (Ribamar Filho), que foi em sua direção, correndo, ele estava todo molhado de suor, tentava balbuciar algumas palavras, e babava, os olhos revirando, até que desfaleceu nos braços do filho.
“Quando foi no dia dessa tragédia, dia primeiro de junho, eu estava atrás de uma cadeira de rodas para a minha filha que tem esse problema de reumatismo infeccioso, então, eu estava cuidando dela, vieram me avisar e fui correndo, quando cheguei ao hospital, disseram que o Ribamar tinha chegado morto, quer dizer que ele morreu lá mesmo”, explica a viúva, que, além de Ribamar Filho e de Soraia, também tem mais dois filhos com o (falecido) José Ribamar: Ângelo Geovane Borges Ribeiro, 20 anos (que está em alto mar), e Joao Alberto Borges Ribeiro, 24 anos (no momento numa clínica de recuperação, em Benfica).
Dona Anunciação diz que gosta de viver, de sorrir, e de cantar. Ela conviveu durante 24 anos com José Ribamar. Ultimamente, estava entre Bragança e Belém, onde atua como diarista, mas sem esquecer de telefonar e saber como estão as coisas, garante. E ela diz que esta “separação” ocorreu por pressões que a família sofreu quando moravam no campo de aviação. Ela e José Ribamar teriam sofrido ameaças de especuladores imobiliários e de pessoas ligadas a grupos políticos, institucionais e empresariais para deixar um extenso terreno em que moraram durante doze anos. Se resistissem, denuncia, eles perderiam a casa. Dona Anunciação diz que, depois de três anos de resistência a pressões e ameaças, eles teriam “negociado” um estranhíssimo acordo segundo o qual seu José Ribamar sairia do espaço e ficaria numa casa alugada, mas curiosamente “bancada” por quem o ameaçava e tinha interesse no terreno em que ele morava no campo de aviação, enquanto ele esperaria a casa do programa Minha Casa Minha Vida, como numa troca.
A viúva Anunciação garante que todos estes fatos e essas ameaças inclusive já haviam sido denunciados a representante local da OAB em Bragança, a advogada Helda Aranha, que teria orientado José de Ribamar a fazer um documento em que obtivesse assinaturas de vizinhos-testemunhas que garantissem que ele morava há mais de dez anos no terreno do campo de aviação. Este documento chegou a ser formatado, entretanto, fora supostamente “furtado” por um funcionário público municipal, provavelmente do DEMUTRAN, que, sob alegação de que faria uma cópia, teria desaparecido com o documento. Tais fatos, de acordo com a viúda de José Ribamar, são do conhecimento da Justiça, que, segundo a viúva, teria convocado os acusados, sem que os mesmo tivessem comparecido em juízo para prestar esclarecimentos.
Com uma série de problemas familiares para resolver, uma filha doente que precisa de cadeiras de rodas; um filho internado numa clínica de recuperação; e um filho especial (que está abalado psicologicamente com a morte do pai, com quem morava, tendo inclusive até dormido na rua após este acontecimento); Dona Anunciação quer que a justiça seja feita e que o Estado reconheça o seu direito e transfira imediatamente para o seu nome o imóvel (“quitado”), já que é viúva e mãe dos filhos de José de Ribamar, falecido em circunstâncias que precisam ser devidamente esclarecidas. Ela diz que já falou sobre este assunto com a coordenadora local do programa, Jaqueline Araujo, que lhe teria orientado a procurar o programa Bolsa Família e lhe teria garantido que o assunto já está encaminhado à Caixa Econômica Federal. Ela afirma que vai esperar mas que também vai procurar os seus direitos na Justiça.
Fonte © ‪#‎TRIBUNADOSALGADO‬
(Texto: Francisco Weyl /Foto: Dri Trindade)
Tecnologia do Blogger.