#EDUCAÇÃO‬ > Cursinho popular forma cidadão à universidade pública >


Popularmente conhecida como “Maricotinha”, a Escola Municipal de Ensino Fundamental Maria José dos Santos Martins, em Bragança, recebe todas as noites dezenas de jovens que têm em comum o sonho de passar no vestibular. A maioria trabalha, é do sexo feminino, mãe de família, e tem entre 20 e 30 anos. Elas e eles assistem a aulas de segunda a sábado para dar conta de aprender os conteúdos do Exame Nacional de Ensino Médio – ENEM no cursinho popular Dalcídio Jurandir, que prepara, há três anos, estudantes bragantinos para a universidade pública.
Gerido por um coletivo de oito pessoas originário de experiências pedagógicas de cursinhos populares e de militantes dos movimentos sociais “Consulta Popular”, “Levante popular da juventude” e “Casa de educação popular - CEP”, o cursinho popular Dalcídio Jurandir, para além do ingresso no ensino superior, estimula também o jovem a se tornar um cidadão com responsabilidade ética e social.
Responsável pela coordenação pedagógica, o educador Denílson Miranda afirma que o objetivo do cursinho é fazer com que o trabalhador oriundo de escola pública tenha o direito de ingressar na universidade pública, tornando-se, neste percurso em um agente de transformação social. O cursinho popular Dalcídio Jurandir, portanto, é uma experiência educativa e pedagógica que enfrenta o atual quadro de segregação no campo educacional brasileiro, razão pela qual seus educadores utilizam-se do método da educação popular e libertador de Paulo Freire para introduzir e avançar debates sobre a condição do trabalhador no processo de educação do Brasil. “Eles têm que se perceber enquanto classe social, enquanto sujeitos de uma sociedade”, esclarece o pedagogo, para quem é imprescindível a relação do educando e do educador em sala de aula.
Além da sede do município de Bragança, a experiência do cursinho popular já foi colocada em prática em Caratateua e no Treme, onde, aliás, mais aprovou candidatos formados em diálogos e práticas coletivos e criativos que muito lhes ajudaram no processo de ensino e de aprendizagem.
Mas isso era no tempo em que havia parceria com a Prefeitura, que, entretanto, retirou o apoio, deixando de pagar as bolsas aos educadores, que por sua vez tiveram que sair do cursinho, provocando, consequentemente, uma evasão de cerca de 50% de estudantes, além da não aprovação massiva dos alunos, conforme haviam planejado os coordenadores da experiência. “Quando assumimos, a partir de 2015, redefinimos o projeto”, informa o educador João Batista, 30 anos, também um dos coordenadores da experiência.
JB, como faz questão de ser chamado, diz que estes problemas provocaram uma reavaliação e reestruturação do cursinho, hoje com uma grade fechada de doze disciplinas, orientadas das 19hs até às 22hs de segunda-feira à sexta-feira, duas por noite, estendendo-se aos fins de semana, com “aulões” das 14hs até às 20hs, no primeiro sábado de cada mês. “Há uma contrapartida do aluno para ajudar a manter os professores no valor de R$ 30 reais mensais”, informa o coordenador JB.
Outro educador do coletivo gestor, Raimundo Ferreira, 32 anos, explica que o cursinho conta atualmente com doze professores, um para cada disciplina, cem alunos matriculados, que são divididos em duas turmas de cinquenta pessoas, além de uma fila de espera de mais de cem candidatos. E a procura ainda é muito grande, o que demonstra a carência dos cursos alternativos em cidades médias como Bragança. Mas a carga horária não dá conta de cobrir o conteúdo do ENEM, que é imenso. Por isso mesmo, além dos “aulões” de conteúdo, existem os simulados, que são realizados a cada três meses, para verificar a assimilação dos conteúdos pelos estudantes que tanto assistem a aulas quanto são convocados constantemente a avaliar os processos de ensino-aprendizagem. E nesse momento, dizem como se sentem, se gostam dos conteúdos e das metodologias, se compreendem as disciplinas. E este é um dos diferenciais pedagógicos, inspirados em Paulo Freire e praticadas pela maioria dos cursinhos populares brasileiros.
Afinal, o paradigma de uma Educação processada pela repetição e sem a produção crítica de conhecimentos está superado pela História: a Educação é uma via de mão dupla, ensina-se, aprende-se. O processo de ensino-aprendizagem é necessariamente uma ação transformadora, dinâmica, dialética e complexa, que não se encerra nele mesmo, sendo, pois, contínuo, nas relações que se estabelecem com e nas comunidades onde este processo se desenvolve, na escola, na academia, na associação, na rua ou na praça pública. Fazer da educação um espaço autômato é um atentado contra o desenvolvimento das ciências humanas e da humanidade em geral. É tempo de reformular conceitos, abrir as cabeças para as potencialidades de um novo processo que se instaura nas consciências globais. O processo educacional é dinâmico, dialético e necessariamente democrático. Tanto educadores quanto educandos têm o direito de se expressar e de ser ouvidos na construção do saber.
O cursinho popular Dalcídio Jurandir, dentro desta perspectiva, enfrenta os seus próprios limites e desenvolve práticas alternativas que envolvem os alunos na luta pela superação das desigualdades na educação brasileira, por uma universidade pública e de qualidade, aberta e plural, com vagas para os filhos dos trabalhadores. Suas experiências educacionais democratizam o acesso ao ensino com alternativas reais, bem longe da tensão provocada pela concorrência estimulada pelo capitalismo, e sensíveis às humanas demandas das diversidades urbanas.
Este sonho de milhões de brasileiros de chegar até a universidade pública, envolve, portanto, uma série de questões que extrapolam o desejo de um futuro melhor e perpassam processos que envolvem financiamentos, políticas e estruturas administrativas e públicas. Os cursinhos populares, entretanto, seguem no contra fluxo da lógica de mercado que predomina na formal educação nacional. Inspirados nas práticas pedagógicas libertadoras dos movimentos sociais, eles também se preocupam com a dimensão cidadã e participativa dos estudantes, para que estes compreendam o sistema político e econômico que gere o próprio processo educacional.
FONTE © ‪#‎TRIBUNADOSALGADO‬
(Texto: Francisco Weyl / Foto: Dri Trindade)
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