#(RE)MARCADO > Documentário re-(a)presenta cineclubes bragantinos


Mais que uma simples projeção, a exibição do filme “Cabra marcado para morrer” marca a força organizativa das ações cineclubistas bragantinas. Com entrada franca, a sessão começa às 20h30, sob a curadoria do Atelier de Artes e Práticas Audiovisuais, projeto vinculado ao Festival Internacional de Cinema do Caeté – FICCA. Sensível ao movimento que se realiza na cidade, e com o apoio do Cineclube Céu de Estrelas, que realiza sessões cineclubistas no Vacaria Club, onde acontece a sessão do filme de Eduardo Coutinho nesta quarta-feira (6/5), o FICCA convoca pessoas que agitam a cena audiovisual no Município para assistir ao filme e também para falar e construir políticas públicas setoriais culturais e audiovisuais. Pretende-se a partir desta sessão, inventariar as ações cineclubistas municipais, incluindo-se nestas ações de natureza institucional, pedagógica e também aquelas realizadas espontaneamente. De posse deste levantamento, identificadas suas deficiências e potências setoriais, Bragança poderá tanto visualizar o que tem (e que seguramente não é pouco) neste campo, quanto consolidar políticas públicas, pela via de editais, para apoiar a produção, realização e formação em cinema e vídeo.



CABRA - Proibido pela censura no período da Ditadura Militar, este filme foi rodado inicialmente à preto e branco, em 1964, e finalizado à cor no ano de 1985. No documentário Eduardo Coutinho “narra” a história do agricultor João Pedro Teixeira, pelas falas de sua viúva, Elizabeth Teixeira.



SINOPSE
Em 1964, Eduardo Coutinho inicia um filme de ficção, em que camponeses reencenam o drama de João Pedro Teixeira, líder camponês paraibano assassinado dois anos antes. A ditadura interrompe as filmagens e a família de João Pedro se dispersa. 17 anos depois, o documentarista encontra as pistas da viúva, Elizabeth Teixeira, e retoma a história.



FICHA TÉCNICA E ARTÍSTICA
Nome: Cabra marcado para morrer
Nome Original: Cabra marcado para morrer
Cor filmagem: Colorida e Preto e Branco
Origem: Brasil
Ano de produção: 1985
Gênero: Documentário
Duração: 119 min
Classificação: Livre
Direção: Eduardo Coutinho





‎CRÍTICA

© Neusa Barbosa

Cabra Marcado para Morrer é, por muitas razões, um filme que virou mito. Sem deixar de ser um grande, inesquecível, imperdível filme. Quando o projeto começou, no início dos anos 60, pensava-se numa obra de ficção, em que camponeses reencenariam uma história real, a do líder camponês João Pedro Teixeira, fundador da Liga Camponesa de Sapé (PB), assassinado a mando de latifundiários, em 1962.

Mais de uma vez, o projeto foi atravessado pela vida e pela História. Quando finalmente o cineasta Eduardo Coutinho teve os recursos para a filmagem, produzida pelo CPC da UNE e o MCP (PE), já corria o ano de 1964. As filmagens foram interrompidas pela ditadura que baixou sobre o país, houve imagens e câmeras perdidas, membros da equipe presos ou fugitivos. Uma parte do material filmado milagrosamente se preservou. Por isso, apenas, Cabra... já entrava no território da lenda.

A obra sobreviveu a peripécias que, caso pertencessem à ficção, pareceriam inventadas – caso de latas do filme escondidas debaixo da cama de um general, pai do cineasta David Neves, negativos salvos por terem sido enviados a revelar no Rio e ocultos na Cinemateca do MAM sob um título falso, A Rosa do Campo.

Mais dramática do que a história do próprio filme, sem dúvida, foi a diáspora imposta pela ditadura à família do líder assassinado – sua mulher, Elizabeth Teixeira, fugida também com nome falso para o interior do Rio Grande do Norte, carregando apenas um dos 11 filhos. Os demais foram entregues aos cuidados do avô e dos tios, espalhando-se depois por vários estados do Brasil.

Na cópia agora impecavelmente restaurada da produção, originalmente concluída em 1984, reencontram-se os vários tempos desta longa e trágica saga, símbolo das incertezas e contradições da nação, mas também testemunho da resistência de seus habitantes e de seus artistas.

Por muitas razões, este Cabra... tornou-se um marco, inclusive inaugural da carreira do mais famoso documentarista do Brasil (que aqui abandona o Globo Repórter). Uma delas, a maneira como os vários tempos convivem dentro da trama – as imagens restantes do filme inicial de 1964; as sucessivas retomadas do projeto, pela teimosia de Coutinho, no início dos anos 80, após a abertura política proporcionada pela anistia de 1979; e agora, em 2012, as cores reencontradas na restauração, o som audível como nunca.

No reencontro de Elizabeth e na sua progressiva transformação diante da câmera, ao reencontrar a identidade sufocada da antiga líder camponesa, o filme encontra sua espinha dorsal, incorporando ainda o diretor-personagem, com um Coutinho, ainda de cabelos pretos, em cena, uma inovação tremenda nos documentários dos anos 60.

Nos sobressaltos que interrompem as filmagens, seja em 1964, seja no início dos anos 80, a narrativa encontra um fio, reassentando as dores, as cicatrizes e afirmando a sobrevivência não só de seus personagens e diretor, como a do próprio filme, que assume em seu discurso seus percalços e hesitações.

O próprio Coutinho aqui se sintetiza e antecipa – estão impressos nos fotogramas do Cabra... o Coutinho militante do CPC de 1964; o Coutinho forjado no Globo Repórter, que ali conheceu melhor o Nordeste; o Coutinho mestre da arte da conversa, que amadurecia o futuro diretor de Santo Forte (99), Edifício Master (2002), Peões (2004)e Jogo de Cena (2007).



Se por mais nada fosse precioso, como de fato é, este Cabra... mereceria o adjetivo por condensar com tal autenticidade as dimensões individual, política e afetiva de todos os envolvidos. E assim atravessa a fronteira em que o documentário se torna vida e se transforma, ele mesmo, em História.
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