#ENTREVISTA > Projeto Tocaiúnas lança quinze novos escritores paraenses


Há poetas e poetas, uns que se isolam de seu tempo, outros, que tem o tempo atravessado dentro de si, como um deserto. Airton Souza é um desses poetas que sabe atravessar o maior de todos os desertos, a indiferença humana, pela via de poemas-fragmentos (quase haikais), que nos (e)levam além de cronologias.
Com treze livros de poesias publicados e prêmios literários como “Dalcídio Jurandir” e o “Proex de Arte e Cultura”, Airton poderia usar esta sua experiência em benefício próprio, mas ao contrário, apaixonado pela poesia que é, ele se empenha em apoiar jovens escritores. Em parceria com a poeta Eliane Soares, este poeta , professor, blogueiro e ativista cultural coordena os projetos Tocaiúnas e o Sarau da Lua Cheia, que vem sendo realizado em Marabá a mais de 2 anos. Recentemente, eles publicaram quinze novos escritores, originários do município de Marabá, município que neste momento escreve uma nova história da literatura amazônida.

ENTREVISTA – Poeta Airton, você acaba de fazer um trabalho hercúleo de muita responsabilidade, publicar escritores, na verdade quinze, de uma só vez, sem dúvida, um feito que merece de todo no Estado o reconhecimento, por este empenho, pelas letras e pela cultura deste povo. Desde já meus parabéns, acima e antes de tudo.

TS > O que é este projeto e o que lhe motivou a criar e/ou fazer parte dele?
AS > O projeto Tocaiúnas idealizado por mim e pela Professora Universitária e poeta Eliane Soares foi basicamente motivado pelas próprias condições em que nos encontramos atualmente no cenário literário de Marabá. Veja, estamos em uma região que a Marge geográfica. O interior do Pará. Cidade muito conhecida pela violência, pelos conflitos de terra, pelas enchentes naturais, pelas pistolagens. Então, através de iniciativas assim, gostaríamos de mostrar que além desses fatores sócio-econômicos, temos por aqui muitas pessoas de bem, intelectuais, pessoas que estão produzindo conhecimentos, através de pesquisas e da escrita da literatura.

TS > Quem são os seus parceiros (obreiros) nesta empreitada?
AS > Inicialmente, com a publicação do primeiro volume do Projeto Tocaiúnas, com a publicação de 11 escritores no ano passado, com um mega lançamento dos livros as margens do Rio Tocantins, em uma noite memorável, os livros foram bancados pelos próprios autores. De fato a empreitada foi de extrema importância pelos resultados positivos que ainda hoje estamos colhendo, pela semente lançada.
Nesta segunda edição, e, como fruto da primeira, o Projeto foi abraçado pela Empresa Vale, que acabou patrocinando a publicação dos 15 escritores, cada um com a publicação de um livro solo. O que resultará no lançamento, na noite do dia 09 de maio, na Biblioteca Municipal Orlando Lima Lobo, em mais de 6 mil livros, que serão vendido ao valor simbólico de R$ 5 a unidade.

TS > Quais os objetivos e as metas do TOCAIUNAS?
AS > Creio eu que os objetivos principais do Projeto Tocaiúnas perpassam por três vertentes, que são eles: a disseminação do livro, como algo importante para a vida das pessoas, a valorização e divulgação da produção literária dessas regiões paraenses e a promoção da leitura.
Nossas metas é realmente tentar colaborar para que essa região se torne um espaço de leitores. Onde as pessoas possam serem visto com livros nas ruas, nos ônibus, em locais diversos.

TS > Quais os produtos (lançados) e autores publicados, a editora, empresas e instituições envolvidas via apoio cultural e/ou patrocínio?
AS > Nessa segunda edição do Projeto Tocaiúnas serão 15 autores com 15 livros solos, que são eles Todo o trabalho de edição ficou por conta da Planet Comunicações e a impressão dos livros a cargo da Gráfica e Editora Halley, de Teresina, no Piauí, com total patrocínio da Empresa Vale, que deve ter feito ai um investimento beirando os R$ 30 mil reais, para que pudéssemos ter de fato a realização desse projeto e com essa envergadura.

TS > O que significa para você publicar novos autores?
AS > Penso sempre nas questões em que vai nos tornar muito mais próximos. Fazer com que o movimento literário nessas regiões possa crescer cada vez mais, principalmente, que nós estaremos fazendo com que os escritores possam estarem mais unidos, como um grupo que busca os mesmo ideais.
Qual a importância do livro e da literatura em linhas gerais para a cultura de um povo?
Vejo bem os momentos que estamos passando e, os que já estão no passado. Principalmente, levando em consideração os países em que a população ler e os países que a leitura está em último plano, ou seja, na margem, é quase possível afirmar que tanto o livro, a literatura e a leitura são imprescindíveis na formação intelectual e na própria construção histórica de um povo.
Estamos escrevendo a cada momento a nossa história e de quebra a história de nosso tempo e espaço. Isso implica dizer que sem a literatura é impossível viver.

TS > Quais os processos e encaminhamentos a partir de agora no âmbito do TOCAIUNAS, quero dizer, ações, lançamentos, próximas publicações, etc...?
AS > Dentro das nossas programações, estaremos na noite do dia 09 de maio realizando o lançamento oficial, na Biblioteca Municipal de Marabá, com coquetel, sessão de autógrafos e show musical. A partir daí, realizaremos um ciclo de palestras em escola públicas de Marabá e reigão, a doação dos kits dos livros a todas as bibliotecas de Marabá e de algumas cidades vizinhas. Realizaremos um lançamento na Cidade de Itupiranga e outros lançamentos coletivos, dividindo o grupo de escritores. Depois, um Papo Literário somente com as mulheres escritoras que participaram do projeto para falar de processo de escrita, de leituras, de suas experiências de vida e da participação no projeto. Do mesmo modo, será realizado depois com os escritores homens.

TS > Você também dinamiza sessões literárias e saraus na Biblioteca, via outros projetos, aí em Marabá. Poderia dizer para nós o que são estas atividades, quem elas envolvem , quais as suas frequências e quem são os envolvidos, e público alvo, por gentileza.
AS > Estamos a frente, juntamente com outras pessoas de diversos projetos literários, entre eles, o Projeto Tocaiúnas, o Sarau da Lua Cheia, o Papo Literário, lançamentos de livros, rodas de leituras, Sarau da Arma Poética, que exclusivamente voltados para estudantes das escolas públicas de Marabá e Região, a Associação dos Escritores do Sul e Sudeste do Pará, a Tenda do Escritor Marabaense entre muitos outros projetos.
Quanto ao público alvo, costumo dizer que a bur(r)ocracia, que é de fato uma burrocracia, não pode nos vencer nunca. Por isso, nossas atividades estão voltadas para todos os públicos, sexos, idades, religiões e coisas afins. Estamos lidado com uma questão difícil, que é o livro e a leitura. E, para piorar, a grande maioria são poetas, que é o gênero literário que está sempre a margem em relação aos demais gêneros. Observando, vamos ver que os grandes leitores de poesia hoje no país, são os próprios poetas. Só com isso, já podemos vê que o nosso trabalho é árduo e deve ser incansável. Um trabalho diário. Que eu costumo chamar de combate.

TS > Há alguma coisa que eu deixei de perguntar e que você gostaria de (de)marcar para que eu melhor registre no texto que irei publicar no Jornal TRIBUNA DO SALGADO, que tem circulação digital nas redes sociais?)
AS > Gostaria em nome de todos os escritores de Marabá lhe agradece a oportunidade. Dizer-lhe que ao ser convidado para essa entrevista fiquei imensamente emocionado, pois, receber um convite vindo de você que admiro muito como artista e como ativista cultural, deixou-me completamente emocionado.
Dizer ainda, que Marabá vem vivenciando um momento lindo em relação a literatura, que é hoje, ao nosso ver um dos mais fortes segmentos dentro da cultura local. Mas, que isso se deve a lutar de um pequeno grupo de pessoas, e, não de instituições literárias, ou órgãos governamentais, como muitos por ai estão pensando, sem ao menos conhecer de fato o que está acontecendo. Isso é outra questão que mostra que nós devemos nos empenhar ainda mais no trabalho e mostrar que podemos fazer sem está esperando pelo poder público e por ajudas vinda do céu.
E, que Marabá está de portas abertas aos escritores paraenses. Que nós estamos nesse momento, e espero que para sempre, primando pelo coletivo, e, não pela satisfação pessoal. Mas, sim, de um grupo de pessoas. Mas, que todos nós sabemos, que mesmo nesse processo, há sempre alguns que se destacam na frente de outros. Faz parte. Até porque nós temos as questões ligadas ao tempo de cada um; ao emprego; a dedicação e outros fatores. Mas, que eu particularmente, me desculpe os outros confrades(por aqui temos alguns que fazem isso também, mas que eu gostaria que fosse em maior número), venho me esforçando ao máximo, para esses fatores não venha me deixar de fora desses momentos, que é muito lindo para a minha própria vida. Porque estou em um estágio em que a literatura passou a ser para mim uma questão de vida mesmo.
E, para finalizar, que nós possamos ganhar o devido reconhecimento por tudo o que foi feito nesses últimos anos. E, não ignorados, como vem acontecendo nesse momento, principalmente, pelos nossos políticos locais, que preferem reconhecer os parentes e amigos próximos, e nunca estão dispostos a nos aplaudir. Pois, particularmente, receber um reconhecimento, quando eu já estiver morto, não vai fazer-me nenhuma diferença. Também nem quero. Quero só viver minhas emoções em vida mesmo.

PS:
1) Esta entrevista foi concedida via Email pelo poeta Airton Souza ao jornalista Francisco Weyl, diretor e editor da TRIBUNA DO SALGADO;
2) Foto de Aiton Souza retirada de seu perfil no FB
Entre os livros de Aiton estão "Psicografia", "Pó É Mar", ambos da 3) Editora Penalux, "Infância Retorcida" e "A boca da Noite", pela Editora Giostri.
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