#QUILOMBOS "Cultura cametaense tem a marca da negritude"


O conhecimento, a cultura e o emprego da mão-de-obra negra teve uma grande importância para a economia amazônica. Os escravos negros foram utilizados em atividades agrícolas e extrativistas, nos trabalhos domésticos e nas construções urbanas. A história da escravidão no Pará, de acordo Vicente Sales (2005), tem a marca da resistência de negros e índios pela liberdade, por meio da fuga, da construção dos quilombos e da participação na Cabanagem.

Não por acaso, o Pará tem mais de 250 comunidades tradicionais quilombolas. Cerca de 65 delas se localizam no vale do rio Tocantins, entretanto, apenas 11 comunidades estão legalmente tituladas. Segundo o historiador e pesquisador cametaense Manoel Valente, o vale do rio Tocantins abrangia desde o município de Limoeiro do Ajuru até Tucuruí, àquela altura São Pedro de Alcobaça. E só lá pelo século XVIII vão surgir Baião e Mocajuba. Tudo era Cametá. Então, muitos negros subiram os rios e se deslocaram para esta região.

Valente observa que o movimento se fortaleceu e como consequência, 60% da população de Cametá é autodeclarada negra, mas que este fato às vezes passa despercebido. O pesquisador afirma que a cultura da região baixo-tocantins, no nordeste paraense, tem ascendência africana no sangue, na língua e na cultura, tanto isto é verdade que algumas palavras que denominam expressões culturais tem origem ioruba e banto, como o samba de cacete, o banguê e o bambaê.

Esta influência também pode ser facilmente identificada na culinária, ainda que de forma mascarada, até porque, critica o historiador, há um preconceito muito grande na região de Cametá, onde, segundo ele, se um visitante entrar no museu do município, ele vai se deparar com o que Manoel Valente chama de toda aquela cena imperial, republicana, colonial, com Dom Romualdo de Seixas, Dom Romualdo Coelho, Padre Prudêncio, mas quase nenhum registro da presença negra.

“O único negro presente no museu de Cametá é o mestre Penafort, apenas a imagem dele”, o que, de acordo com Valente, mascara a cultura genuinamente afroamazônida, ou seja, o visitante do Museu chegará fatalmente a conclusão de que os negros não participaram da História do município. E esta contradição também se acentua nas próprias comunidades tradicionais quilombolas, como exemplo a de Tabatinga Média, onde estivemos e dialogamos com a matriarca da comunidade Menino Jesus, Dona Maria Madalena. Um dos fatos mais curiosos que nos chamaram a atenção é como a evangelização cristã apagou os mitos e as culturas que estas populações herdaram de seus antepassados. Além disso, estas culturas também foram contaminadas pela indústria cultural, via televisão e/ou migrações destas próprias populações - do mato para áreas mais próximas das zonas urbanas. 

Em Tabatinga Média, o samba de cacete sobrevive apenas no imaginário e nas memórias dos mais velhos, já que a própria juventude local vive um fenômeno que nem ela mesma consegue perceber, deixando-se diluir nas novidades que são publicitadas pelo mercado e as quais ela própria projeta, anseia e deseja. A Senhora Maria Madalena que já foi parteira e conhece ervas medicinais, conhecimento que herdou dos pais escravos, prefere disfarçar e mudar o rumo da conversa quando indagada sobre seus poderes. Cristã convertida pelas missões de evangelização levadas pela Igreja, quando muito, ela aplica a sua santa mão nos filhos e nos netos.

De acordo com pesquisas desenvolvidas pelo Instituto Saber-Ser Amazônia Ribeirinha (Issar) na região, a pesca do camarão, a caça de animais, e atividades de agricultura familiar (principalmente a produção da mandioca), constituem a base de sobrevivência nessas comunidades, que, aliás, enfrentam problemas relacionados à produção de bens e ao seu escoamento, já que as estradas e estruturas de transporte são precárias. A produção da mandioca, da qual derivam a farinha d’água, a farinha de tapioca, o beiju cica serve tanto para a subsistência das famílias quanto para a venda no mercado local e na feira do Juaba, que acontece aos domingos.

A identidade étnico-cultural destas comunidades se encontra ameaçada, sobretudo pelo envelhecimento dos adultos que permanecem na comunidade, por conseguinte a perda gradativa das manifestações culturais, danças e ritmos, mais característicos dessas comunidades. Considerando-se que estas populações estão em condições vulneráveis, do ponto de vista histórico, social e econômico, é necessário aprofundar o conhecimento sobre estas comunidades e traçar políticas públicas adequadas às garantias dos direitos destes povos.


Tabatinga e Região

De acordo com estimativa de um dos quilombolas mais antigos destas comunidades, o Sr. Coelho (Seu Pina), a comunidade tradicional de Tabatinga tem cerca de sessenta famílias (em média trezentos habitantes) e está dividida em três partes, sendo Tabatinga médio, Boca (mais próximo de Juaba) e Tabatinga de cima (área pertencente ao município de Mocajuba).

A comunidade foi ação do Projeto Terra da Liberdade ("Mola"), desenvolvido entre 2010 e 1014 pelo ISSAR, Instituto Saber-Ser Amazônia Ribeirinha, no Município de Cametá. Além de Tabatinga, Mola, Itapocu (ou Itapucu), Bonfim, Frade, Laguinho, Taxizal e Tomázia (cerca de mil pessoas) foram envolvidas neste processo..



ISSAR

Fundado em 21 de setembro de 2001, o Instituto Saber Ser Amazônia Ribeirinha atua com desenvolvimento sustentável, educação, saúde, economia solidária e cultura digital. A entidade também chama para si os desafios de construção de uma democracia participativa com controle social – para melhorar a qualidade de vida de comunidades quilombolas amazônicas, dentro de uma dimensão histórica, étnico e cultural. Além disso, o Instituto contribui com projetos em rede como o FAOR e Observatório da Cidadania, participa da coordenação do Fórum (nacional e estadual) e do Conselho Estadual de Economia Solidária.






Narrativas e poéticas audiovisuais

Algo de novo está nascendo no coração da floresta amazônica. Quilombolas constroem e narram a sua própria história no cinema. É a vez dos quilombolas lançar mão da arte cinematográfica para afirmar seus direitos históricos, pela via de processos coletivos e democráticos de construção de filmes de curta e média-metragens com equipamentos digitais.

Entre 2013 e 2014, cerca de cinquenta jovens quilombolas cametaenses participaram de três oficinas desenvolvidas pelo ISSAR, com apoio do UNICEF, Universidade Federal do Pará, Prefeitura Municipal de Cametá e Associação Quilombola Terra da Liberdade.

As oficinas aconteceram no âmbito do projeto “Terra da Liberdade” (Mola), desenvolvido pelo ISSAR em diversas comunidades tradicionais e quilombolas de Cametá.

Com a participação de jovens das comunidades do Juaba, Tabatinga, Tomázia e Mola, as oficinas foram coordenadas pelo poeta e realizador Francisco Weyl, com assistência do artista Cuité e da fotógrafa Dri Trindade.



Filmes e textos citados podem ser acessados nos links:

ribeirinhamazonia.blogspot.com.br

http://www.youtube.com/channel/UCjUfkdzOsq_j9OytFmDx_ew

https://www.youtube.com/channel/UCjUfkdzOsq_j9OytFmDx_ew/videos



TEXTO E FOTO © FRANCISCO WEYL (#TRIBUNADOSALGADO)
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