‪#‎LIXO‬ "Coleta seletiva garante sobrevivência"

Cidades desordenadas, sem saneamento são as contradições marcantes da cultura pós-moderna. Quanto mais cresce, mais lixo produz uma nação, que consome e descarta produtos dos quais nem necessita. Sabe-se quem produz e de onde o lixo vem, mas não para onde ele vai. Vidro, isopor, sacos plásticos, lâmpadas, baterias e pilhas são descartados a céu aberto em locais cujo entorno são favelas que sobrevivem as sobras sociais.


Sem reciclagem, os resíduos vão para os aterros e lixões a céu aberto, produzindo verdadeiros exércitos de favelados e famintos a catar as sobras de uma sociedade que ostenta valores materiais a partir do consumo e do descarte de produtos que muitas vezes nem ele própria necessita.


A invasão do Marrocos no Município de Bragança surgiu há uns dez anos, na sequência do aterro a céu aberto onde é jogado o lixo recolhido pela prefeitura de Bragança. Na área também existe a Cooperativa dos catadores de materiais recicláveis dos caetés – Coormarca e alguns depósitos que compram estes produtos que os catadores recolhem nos bairros e no lixão municipal.


Em Bragança, a coleta seletiva é realizada desde 2010 pela Cooperativa dos catadores de materiais recicláveis dos caetés – Coormarca. Fundada há oito anos e legalizada há cinco anos, a Coomarca, que tem trinta e dois associados e elege sua diretoria a cada quatro anos, chega a utilizar dois caminhões, quatorze carroças, uma empilhadeira, uma balança e duas prensas para desenvolver o seu trabalho nos municípios de Bragança, Augusto Correa e Tracuateua.


O diretor comercial da Coomarca, Cícero Edson, 28 anos, informa que toda sexta-feira os catadores recolhem entre 500 Kg e 1,5 Tonelada de lixo de Tracuateua e que há toda uma programação para saída mas não para o retorno dos catadores, que chegam a trabalhar em média nove horas por dia. E quanto mais produzem, mais dinheiro ganham os catadores. A divisão, garante o diretor, é igualitária, conforme o resultado, retira-se o valor dos custos investidos e se divide por todos.


A Coomarca é presidida por Carlos Messias Vieira da Silva, que tem 27 anos e cata lixo há cerca de três anos. Há oito meses à frente da cooperativa, Messias sonha em fazer uma parceria com a prefeitura. A parceria permitirá que a cooperativa atue com o lixo orgânico. Isso diversifica os serviços, atrai mais clientes e garante a sobrevivência de dezenas de famílias que dependem diretamente deste trabalho.


A maior dificuldade que os catadores enfrentam, de acordo com o presidente da Coomarca, é com relação ao rendimento, já que não existe um valor fixo e o ganho é flutuante por ser calculado pelas horas trabalhadas e pelo volume produzido. Ele afirma que, em média cada cooperado fatura R$300 reais e R$800 reais ao mês.


De acordo com Edna Sônia, 39 anos, que tem quatorze anos de quatorze anos de lixo, dá para tirar um bom dinheiro com o trabalho que lhe sustenta. Ela diz que faz entre R$ 500 reais e R$ 700 reais por mês, conforme.


“Antes eu trabalhava em casa, eu e meu marido, nós trabalhava nesse lixão (Marrocos) também, há muito tempo, pegávamos pegava osso, tudo o que dava, mas quando fundou a Cooperativa, nos veio para cá, deixamos aquela vida e fizemos outra, melhor”, explica.


Edna gosta de trabalhar na Coomarca porque, afirma, o clima de trabalho é bom. Na verdade, a cooperativa tem uma estrutura quase familiar, os associados têm relações de parentescos entre si, são casais, irmãos, cunhados, tios e sobrinhos, o que cria confiança entre todos.


“Nós catamos papelão, vidro, plástico, fazemos a triagem do material catado, é muito bom trabalhar aqui, nós ganha cesta básica todo mês da prefeitura, a cooperativa tem dez casinhas, a Caritas nos ajuda com o dinheiro que veio da Itália para comprar os nossos equipamentos, a nossa sede foi doada pela Diocese”, finaliza.








ATERROS E LIXÕES

Bem ao lado da Coomarca, funcionam alguns depósitos de materiais reciclados. Jairo Oliveira Araújo, 43 anos, e Rafael Rodrigues 26 anos, são prestadores destes serviços. Jairo estudou até a sexta série, morava em Belém de onde se deslocou com mulher e dois filhos há dois anos para catar lixo em Bragança. Jairo abandonou os estudos na sexta série, há muitos anos atrás. Mais jovem, Rafael tem menos tempo de catação, seis meses. Nasceu e se criou em Bragança e nunca trabalhou em outra coisa que não no lixo. Não tem mais nem tempo para estudar. Parou na oitava série.


O trabalho diário desses dois brasileiros quase anônimos é o de preencher com cerca de 90 kg cerca de vinte sacos de lixo, diariamente. Estes sacos são colocados na carroceria de um velho caminhão. Além de insalubres, estes veículos se confundem com as próprias sucatas que transportam sem as mínimas condições de segurança nas perigosas e mal conservadas estradas paraenses.


A geração de trabalho e renda neste mercado do lixo sofre as influências diretas do capitalismo selvagem: sem nenhum vínculo formal e qualquer possibilidade de direitos trabalhistas, os catadores são submetidos a jornadas de trabalho extenuantes desde as oito da manhã até às oito da noite, com intervalo de uma hora, para ganhar, quando muito, R$ 25 por dia.



ENTENDA

De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e dos Ministérios do Meio Ambiente e das Cidades, a reciclagem do lixo só acontece em 8% dos municípios brasileiros. E por não reciclar, o Brasil perde R$ 8 bilhões por ano. Segundo os Indicadores de Desenvolvimento Sustentável (IBGE-2010), o setor movimenta R$ 12 bilhões por ano.


O Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), que surgiu em 1999, diz que 99% do que se recicla no Brasil depende do incansável trabalho coletivo, autossustentável e solidário dos catadores de lixo, estejam ou não organizados em cooperativas e associações.


A favor dos catadores, a Lei 11.445 estabelece diretrizes para o saneamento básico e garante convênios e contratações entre prefeituras e cooperativas para a coleta seletiva, que dessa forma se torna um negócio rentável, além de melhorar as condições de vida dos cidadãos excluídos do mercado.

MNCR – O Movimento Nacional dos Catadores(as) de Materiais Recicláveis surgiu em meados de 1999 para defender os direitos de quem sobrevive da coleta do lixo.


PNRS - O governo federal quer qualificar o catador de material reciclável e o inserir no Plano Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS, cuja meta é dar mais dignidade a este profissional, retirando-o do lixão e o direcionando aos arranjos produtivos locais que têm sido implantados no país.


CARITAS - A Cáritas Brasileira faz parte da Cáritas Internationalis, rede de 162 organizações que atuam em cerca de 200 países na defesa e promoção de direitos e na incidência e no controle social de políticas públicas e na construção de um projeto de desenvolvimento solidário e sustentável.


CESTA BÁSICA - A Prefeitura de Bragança financia mensalmente cerca de 30 cestas básicas aos cooperados da Coomarca.

COOMARCA - (91) 98977-2849


© TRIBUNA DO SALGADO (Texto e foto de Francisco Weyl)
Tecnologia do Blogger.