Big Circo diverte meninada bragantina



Natural do Ceará, Alex Marques tem 32 anos. Ele nasceu e trabalhou a vida inteira no Circo (“Big Circo das Estrelas”), junto com o pai Robson de Alencar e sua família. Há pouco mais de um ano, entretanto, resolveu fazer a sua própria estrada. Alex reuniu a mulher e os quatro filhos e começou percorrer diversas comunidades, colônias e campos bragantinos, ocupando barracões para fazer o que sabe, arte circense. Andou pelo município de Augusto Correa e pelas Vilas do Perimirim, Treme, Bacuriteua, Cajueiro, Flecheira, Castelo, e Jiquiri, onde, aliás, sofreu assalto, tendo sido furtada sua renda, além de ter sido agredido. São os ócios do difícil ofício.

“Não tinha lona, a empanada era preta, cercava o salão das comunidades, e o povo trazia a cadeira na cabeça, chegava, a galera se mobilizava, o pessoal ajudava, dava mais, desde roupa, tudo”, fala, enquanto observa o movimento da meninada do lado de fora do seu “Big Circo”, montado na principal avenida do bairro Alto Paraíso, Bragança, bem no terreno do Seu João Galo, proprietário do açougue “Fé em Deus”, um dos parceiros que ajudam e garantem e sobrevivência dos artistas e da própria história do Circo e da Cultura Popular.



“O Big Circo surgiu há aproximadamente um ano atrás, a família cresce, hoje estamos em dois circos, um em Bragança, e outro em Santa Maria; e tem meus filhos que são a terceira geração, a minha arte vai passando para eles, as crianças já nascem no circo, estudam pela manhã, ensaiam a tarde e a noite fazem espetáculo”, esclarece Alex. Seus quatro filhos (Monique ARENA, 6 anos, dançarina; Pedro MIDAS, 5 anos, palhaço; Jorge ATLAS, 10 anos, Mestre-Cena-Palhaço, Monociclo e Arame, e Wesley WILIEN, 11 anos, Palhaço “Filezinho”, Monociclo e o espetacular “Homem Aranha”) entram em cena nas matinês e vesperais que acontecem aos fins de semana.

A rotina de Alex é simples, acorda, sai às ruas, dialoga com pessoas, faz amizades, anuncia seu espetáculo, faz parcerias com comerciantes locais, e até permite que meninos e meninas e jovens entrem de graça no Circo, depois de garantir lotação que renda pelo menos cerca de entre R$ 200 e R$ 350 reais, que divide com sua pequena equipe que se alterna nas diversas atrações. E para quem começou sem lona, só com o pano de roda, hoje Alex já sonha em colocar uma lona ainda maior do que a que a de plástico azul cobre o seu Circo.

Alex cresceu entre carrocerias de velhos caminhões entulhados de lonas e objetos de cena, nas paragens e permanências temporais de pequenas localidades com as quais também aprendera seu ofício da observação e do respeito das desconhecidas pessoas com as quais convivera, escolhendo-as, uma a uma, preservando a sua segurança e garantindo a sua credibilidade. Forjado nas permanentes mudanças de espaços e cidades e nas dificuldades cotidianas de quem encara esta vida em andanças e errâncias nômades, quando muito, apenas com a certeza do momento - de agora, e talvez com o dia de hoje, porque, como diz o adágio popular, o amanhã é amanhã, a Deus pertence.

Sonhador, entretanto, quando fala, Alex se refere a um Circo que não existe, um Circo diferente daquele ao qual ele pratica, um Circo idealizado, sonhado, que ele constrói todos os dias, na labuta e no corpo-a-corpo das periferias das comunidades, sem estruturas de acesso aos diversos serviços públicos e bens sociais entre os quais os produtos culturais.

“Aqui não é teatro, é trabalho com o publico, é feito na hora. o circo pequeno vem de atrações durante a temporada, tem o Ruco do Maranhão, que segura duas motos e no dia seguinte quatro motos, tem o Homem do cabelo de aço, que puxa um carro com o cabelo, tem a atração da vassoura magricela, que dez homens não segura e a mulher domina no decorrer dos dias, tem o Magico de rua, ilusionismos, o festival da tremidinha e do funk, a galinha maluca, com prêmio de cem reais para quem acertar nela, tem o homem do peito de aço que quebra uma pedra de duzentos quilos, o homem de fogo que anda sobre brasas, o homem da pedra de gelo, não faltando às várias atrações. Jogadores de facas, trapézios, monociclos, homem do aranho bambo e o espetacular homem aranha”, finaliza.

E Alex garante ainda que o “Big Circo” tem oito animais (cães) amestrados, entretanto, duas estão grávidas, fato que as impedem de atuar, mas, quando atuam, sabem até andar de skate e pedir o aplauso do público. De acordo com Alex, o IBAMA autoriza amestrar animais domésticos como cão e gato para o Circo. Entretanto, o “Big Circo” instalado no bairro Alto Paraíso, na verdade, conta com o trabalho de em média dez pessoas, seis das quais no picadeiro e as demais no apoio. Eles dependem de uma meta financeira para obterem lucro. Alex troca o apoio de comerciantes por anúncios que faz na Rádio “boca-de-ferro” do Circo. A venda de produtos como pipoca, água e refrigerante do lado de fora não entra no caixa do grupo. E da venda de ingressos apurados na bilheteria, retiram uma parte para o frete do caminhão, que em geral custa R$ 400 reais, dividindo o restante com os artistas.

Nos dois espetáculos que assistimos eu e a fotografa Dri Trindade, segunda e terça (2 e 3 de setembro), observamos que, sem demarcação, o espaço da arena é simbólico, o solo acidentado e o mato mal cortado. As sessões duram pouco mais de uma hora e têm prologados intervalos para mudança de roupas e de objetos de cena das reduzidas atrações. Entre estas, os tradicionais números de palhaço, equilibrismo, trapézio, malabares e engole fogo, intercalados por músicas estilo “pancadão”, além de publicidades de comércios locais como o “pão da Cristina”, o “açaí do nosso amigo Pedro Filho”, mercadinho do Jonas e da Marli, fruteira “Gotinhas de luz”, mercadinho Lopes, “Paraíso móveis”, oficina “Boa Fé” e açougue “Fé em Deus”.

É pequeno o Circo, mas lota. Eles lutam com dificuldades extremas para divertir adultos e crianças. Quem quiser prestigiá-los, tem de aproveitar. Os ingressos custam R$ 3 reais para adultos e R$ 2 reais para crianças, que são devidamente orientadas a não fazerem em casa o que veem no “Big Circo”, porque, se quem brinca com fogo se queima e quem anda no vidro se corta, os artistas, ao contrário, dispõem de técnicas que aprimoram nos treinamentos que lhe asseguram um mínimo de segurança. Mas, atenção que o Big Circo fica apenas até a próxima semana, quarta-feira, com viagem programada para a Parada Bom Jesus ou o município de Tracuateua.





#TRIBUNADOSALGADO © TEXTO: Francisco Weyl / FOTO: Dri Trindade
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