Contribuição ao Audiovisual Bragantino

© Mestre Carpinteiro [1]


Na condição de ativista do movimento cultural audiovisual e também na de diretor-adjunto de memória do Conselho Nacional dos Cineclubes Brasileiros – CNC, e coordenador-administrativo da Federação paraense de Cineclubes – Paracine, fatalmente que me interessaria pelos diálogos que tenho ouvido em Bragança sobre a formação de um Polo Audiovisual e do mesmo modo que haveria de manifestar a minha posição e propostas quanto a sua implantação.
A primeira questão que eu aponto é que na origem este Polo não pode ser confundido com um programa de televisão, no caso, a Bandeirante, uma empresa de natureza privada, mas que aqui em Bragança, curiosamente, por um ardil do antigo gestor em parceria com a Câmara que o aprovou, tornou-se da responsabilidade do Poder Público do Município, que arca com as despesas daquela emissora, o que a meu ver caracteriza por si só uma promíscua relação entre os setores público e privado.
O nome do programa é interessante, mas não concordo, embora compreenda que ele seja o guarda-chuva deste Polo, do qual se tem falado, mas nada se tem definitivamente desenhado. Um Polo Audiovisual, portanto, reúne necessariamente os gestores de instituições, empresas e associações que atuam no setor com perspectivas de refletir e pensar políticas que possam desenvolver este mesmo setor, no caso, estratégias de captura de financiamentos e suportes financeiros concretos pelo estado em vias de leis e editais, além de parcerias com o setor privado na forma de isenções fiscais, etc.
Além do mais, um Polo Audiovisual tem de neste momento estar articulado às perspectivas legais (e às boas vontades políticas) de implantação do Sistema Nacional de Cultura – SNC, com todas as consequências daí advindas, como a aprovação de um orçamento de 2% para o setor, o que de certa forma garante repasses de recursos para que o mesmo se desenvolva de forma competitiva no mercado e assim gere renda e trabalho, além de mais impostos ao Estado.
Mas o Município não pode ficar a espera desta legalidade e tem ele próprio de dar os seus primeiros passos de forma simples, ou seja, a Prefeitura de Bragança via Secretaria de Cultura, deve garantir a realização de oficinas de formação em ROTEIRO / PRODUÇÃO / REALIZAÇÃO / MONTAGEM / de ficção e documentários e de CINECLUBISMO, com duração de cinco dias úteis (uma semana) e com a meta real de que cada uma dessas oficinas resulte na projeção dos filmes criados nas mesmas.
Estas oficinas devem acontecer em diversas comunidades periféricas e/ouem escolas municipais das zonas rurais (ou seja, uma oficina realizada no interior de uma escola e destinada tanto aos alunos quanto as pessoas da comunidade do entorno destas escolas) – o que de certa forma introduz a arte, o cinema na agenda da escola e da própria cidade.
A ideia é também fazer com que estas produções circulem na cidade em sessões cineclubistas abertas ao público seja nas comunidades onde se realizam estas oficinas, sejam naquelas onde as mesmas não serão realizadas.Os custos de cada uma dessas oficinas giram em torno de R$ 2.500,00 (dois mil e quinhentos reais). Portanto, isso não sai caro, se pensarmos que desejamos fazer um POLO AUDIOVISAUL colaborativo.
O calendário destas oficinas deve ser definido em ambientes democráticos criados pelo POLO AUDIOVIOSUAL, como por exemplo, um FÓRUM AUDIOVISUAL, que reúna os atores do setor interessados na construção de políticas públicas audiovisuais inclusivas. E este FÓRUM há de ser o espaço aberto do diálogo e da crítica, da diferença e da aliança política, um lugar onde todos se reconheçam nas suas diferenças, mas que a despeito destas, sejam capazes de alavancar o audiovisual no município.
Ainda paralelamente a estes passos, a Prefeitura de Bragança via Secretaria de Cultura deve lançar um Edital de Apoio e Fomento à produção de filmes, com prêmios em dinheiro para que os melhores roteiros sejam filmados. Na minha avaliação econômica, penso que R$ cerca de 50 mil dá para financiar cinco ou mais filmes, isto se fizermos uma matemática distribuição de prêmios aos vencedores do edital, que seja ampla e permitatanto apoio a filmes caseiros e de câmeras de celular, quanto a projetos com maior produção.
E o POLO AUDIOVISUAL também tem de criar canais de diálogos com o publico jovem, os punks, os freedancers, hip-hops, baladeiros, micareteiros, grafiteiros, reggaaeiros, bregueiros, quadrilheiros, passareiros, marujeiros e jovens de todas as tribos de forma a que sejam convocados e se sintam responsáveis por este processo, que a ele se sintam envolvidos.
A história nos ensina a que aprendamos com os seus erros, ou seja, se por um lado há toda uma lógica que determina a existência de polos audiovisuais pelo país, por outro lado não podemos correr o risco de implantar modelos importados de onde quer que sejam, até porque adequar-se às estruturas não significa necessariamente que tenhamos que nos submeter a elas, antes, pelo contrário, nossa obrigação é questioná-la de forma a que as realidades locais sejam potencializadas na sua criatividade, assim, penso eu, desenvolvem-se os arranjos locais produtivos nas econômicas mundiais, razão pela qual eu questiono as pautas que são postas em cena por instituições que entram nos processos como parceiras, mas que muitas vezes exigem camas quando não damos nem esteiras às comunidades que nos estão mais próximas.
Portanto, um Polo tem de se agregar à História do lugar onde ele se instala, e, nos seus fóruns democráticos, abrir espaço a que esta História seja memorializada, e, pela via da crítica, sejam construídos processos dialógicos em que as falas dos atores sociais setoriais sejam respeitadas, independentemente, de suas origens e certezas. As rodas de conversas são necessárias para que todos escutemos e filtremos estes rumores.
Respeitar a diferença é fundamental para o sucesso deste Polo e de seus fóruns. No campo da arte e da cultura não há lugar para preconceitos, tudo está em aberto, não se pode fechar, nem mesmo aos padrões que estes polos costumam arrastar consigo para dentro dos locais onde eles são instalados, no caso as políticas públicas setoriais já consolidadas nos grandes centros do sul e sudeste do país que é onde se concentram cerca de 90% do dinheiro investido em cultura no Brasil. Bragança, como de resto o Pará e a Amazônia, tem particularidades que a diferem dos demais municípios brasileiros. São estas particularidades que a tornam o que ela é. Obviamente que, ao criarmos um Polo Audiovisual temos que afirmar e valorizar estas particularidades. Elas são a nossa marca.

[1] Autodenominado “Carpinteiro de Poesia”, Francisco Weyl (foto abaixo)  é mestre em artes, especialista em semiótica, professor, produtor e realizador de cinema






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